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Pessoas com catarata podem reduzir o risco de desenvolver demência em cerca de 30%, submetendo-se a uma cirurgia para restaurar a visão

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Idosos submetidos à cirurgia de catarata1 para melhorar a visão2 têm menor probabilidade de desenvolver demência3 posteriormente, segundo um novo estudo publicado no JAMA Internal Medicine.

O efeito pode ser porque as pessoas que perdem a visão2 geralmente passam mais tempo em casa e, portanto, recebem menos estimulação mental – ou pode ser devido a um efeito estranho que a catarata1 tem nas cores que atingem a retina4 na parte posterior do olho5.

A catarata1, que faz com que o cristalino6 se torne mais turvo com a idade, é uma das causas mais comuns de perda de visão2 em pessoas idosas. Ela pode ser corrigida removendo cirurgicamente a lente para substituí-la por uma de plástico.

A perda de visão2 já era conhecida por ser um fator de risco7 para o desenvolvimento da doença de Alzheimer8 e outras formas de demência3. Cecilia Lee, da Universidade de Washington em Seattle, questionou se a cirurgia de catarata1 teria uma correlação perceptível com a incidência9 de demência3.

Ela e sua equipe tiraram proveito de um estudo em andamento nos Estados Unidos que começou na década de 1990 e que visa identificar fatores de risco para demência3. Eles examinaram os registros de saúde10 de cerca de 3.000 participantes que tinham 65 anos ou mais e tinham catarata1 ou glaucoma11, outra doença ocular tratada com cirurgia. Isso foi usado como uma comparação.

Nos oito anos seguintes, aqueles que tiveram suas cataratas removidas tiveram, em média, 71 por cento da chance de desenvolver demência3 do que aqueles que tiveram catarata1 não tratada.

Leia sobre "Catarata1", "Complicações da cirurgia de catarata1" e "Demência3".

Como não foi um ensaio randomizado12, o estudo não conseguiu provar que a cirurgia de catarata1 protegia contra a demência3 – outra explicação possível, por exemplo, é que as pessoas têm maior probabilidade de serem submetidas à cirurgia se forem mais saudáveis ​​no início. Mas não houve diferença significativa nas taxas de demência3 entre pessoas com glaucoma11 que fizeram ou não cirurgia, sugerindo que a cirurgia de catarata1 era de fato protetora.

A cirurgia poderia reduzir o risco de demência3 permitindo a “entrada sensorial de alta qualidade para a retina4 e, portanto, melhorando os estímulos para o cérebro”, diz Lee.

Outra ideia é que, como a catarata1 filtra a luz azul, isso atrapalha a detecção de luz pelas células13 na parte de trás do olho5, que são especialmente sensíveis à luz azul e ajudam a controlar o relógio biológico. Isso pode perturbar nosso ritmo circadiano14 normal, que já foi previamente relacionado à demência3.

“Como a catarata1 afeta a qualidade geral da luz que atinge a retina4, incluindo a luz azul, a cirurgia de catarata1 pode permitir a reativação dessas células13 de uma forma que seja protetora contra o declínio cognitivo”, disse Lee. “Há tanto que ainda não sabemos.”

No artigo publicado, os pesquisadores contextualizam como a função visual é importante para os idosos. Intervenções para preservar a visão2, como extração de catarata1, podem modificar o risco de demência3.

O objetivo do estudo, portanto, foi determinar se a extração de catarata1 está associada a risco reduzido de demência3 entre idosos.

Este estudo de coorte15 prospectivo16 e longitudinal analisou dados do estudo Adult Changes in Thought, uma coorte17 em andamento, baseada na população, de membros cognitivamente normais selecionados aleatoriamente do Kaiser Permanente Washington. Os participantes do estudo tinham 65 anos de idade ou mais e não tinham demência3 no momento da inscrição, e foram acompanhados bienalmente até a ocorrência de demência3 (todas as causas, doença de Alzheimer8, ou doença de Alzheimer8 e demência3 relacionada).

Apenas os participantes que tiveram um diagnóstico18 de catarata1 ou glaucoma11 antes da inscrição ou durante o acompanhamento foram incluídos nas análises (ou seja, um total de 3.038 participantes). Os dados usados ​​nas análises foram coletados de 1994 a 30 de setembro de 2018, e todos os dados foram analisados ​​de 6 de abril de 2019 a 15 de setembro de 2021.

A principal exposição de interesse foi a extração de catarata1. Os dados sobre o diagnóstico18 de catarata1 ou glaucoma11 e a exposição à cirurgia foram extraídos de prontuários eletrônicos. Listas extensas de fatores de risco relacionados à demência3 e variáveis ​​relacionadas à saúde10 foram obtidas a partir de dados de consultas do estudo e registros médicos eletrônicos.

O desfecho primário foi demência3, conforme definida pelos critérios do Manual Diagnóstico18 e Estatístico de Transtornos Mentais (Quarta Edição). As análises de regressão multivariada de riscos proporcionais de Cox foram conduzidas com o desfecho primário. Para abordar o viés potencial do paciente saudável, modelos estruturais marginais ponderados incorporando a probabilidade de cirurgia foram usados ​​e a associação de demência3 com cirurgia de glaucoma11, que não restaura a visão2, foi avaliada.

No total, 3.038 participantes foram incluídos (idade média [DP] no primeiro diagnóstico18 de catarata1, 74,4 (6,2) anos; 1.800 mulheres (59%) e 1.238 homens (41%); e 2.752 (91%) autorrelataram raça branca).

Com base em 23.554 pessoas-ano de acompanhamento, a extração de catarata1 foi associada a risco significativamente reduzido (razão de risco, 0,71; IC de 95%, 0,62-0,83; P <0,001) de demência3 em comparação com participantes sem cirurgia após controle por anos de educação, raça branca autorreferida e história de tabagismo e estratificação pelo genótipo19 da apolipoproteína E, sexo e faixa etária no diagnóstico18 de catarata1.

Resultados semelhantes foram obtidos em modelos estruturais marginais após o ajuste para uma extensa lista de potenciais fatores de confusão.

A cirurgia de glaucoma11 não teve uma associação significativa com o risco de demência3 (taxa de risco, 1,08; IC de 95%, 0,75-1,56; P = 0,68).

Resultados semelhantes foram encontrados com o desenvolvimento da demência3 da doença de Alzheimer8.

Este estudo de coorte15 descobriu que a extração de catarata1 foi significativamente associada com menor risco de desenvolvimento de demência3. Se validada em estudos futuros, a cirurgia de catarata1 pode ter relevância clínica em idosos com risco de desenvolver demência3.

Veja também sobre "Distúrbio neurocognitivo", "Mal de Alzheimer20" e "Surdez em idosos e o risco de demência3".

 

Fontes:
JAMA Internal Medicine, publicação em 06 de dezembro de 2021. (doi:10.1001/jamainternmed.2021.6990)
New Scientist, notícia publicada em 06 de dezembro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Pessoas com catarata podem reduzir o risco de desenvolver demência em cerca de 30%, submetendo-se a uma cirurgia para restaurar a visão. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1406940/pessoas-com-catarata-podem-reduzir-o-risco-de-desenvolver-demencia-em-cerca-de-30-submetendo-se-a-uma-cirurgia-para-restaurar-a-visao.htm>. Acesso em: 6 dez. 2022.

Complementos

1 Catarata: Opacificação das lentes dos olhos (opacificação do cristalino).
2 Visão: 1. Ato ou efeito de ver. 2. Percepção do mundo exterior pelos órgãos da vista; sentido da vista. 3. Algo visto, percebido. 4. Imagem ou representação que aparece aos olhos ou ao espírito, causada por delírio, ilusão, sonho; fantasma, visagem. 5. No sentido figurado, concepção ou representação, em espírito, de situações, questões etc.; interpretação, ponto de vista. 6. Percepção de fatos futuros ou distantes, como profecia ou advertência divina.
3 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
4 Retina: Parte do olho responsável pela formação de imagens. É como uma tela onde se projetam as imagens: retém as imagens e as traduz para o cérebro através de impulsos elétricos enviados pelo nervo óptico. Possui duas partes: a retina periférica e a mácula.
5 Olho: s. m. (fr. oeil; ing. eye). Órgão da visão, constituído pelo globo ocular (V. este termo) e pelos diversos meios que este encerra. Está situado na órbita e ligado ao cérebro pelo nervo óptico. V. ocular, oftalm-. Sinônimos: Olhos
6 Cristalino: 1. Lente gelatinosa, elástica e convergente que focaliza a luz que entra no olho, formando imagens na retina. A distância focal do cristalino é modificada pelo movimento dos músculos ciliares, permitindo ajustar a visão para objetos próximos ou distantes. Isso se chama de acomodação do olho à distância do objeto. 2. Diz-se do grupo de cristais cujos eixos cristalográficos são iguais nas suas relações angulares gerais constantes 3. Diz-se de rocha constituída quase que totalmente por cristais ou fragmentos de cristais 4. Diz-se do que permite que passem os raios de luz e em consequência que se veja através dele; transparente. 5. Límpido, claro como o cristal.
7 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
8 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
9 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
10 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
11 Glaucoma: É quando há aumento da pressão intra-ocular e danos ao nervo óptico decorrentes desse aumento de pressão. Esses danos se expressam no exame de fundo de olho e por alterações no campo de visão.
12 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
13 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
14 Ritmo circadiano: Também conhecido como ciclo circadiano, o ritmo circadiano representa o período de um dia (24 horas) no qual se completam as atividades do ciclo biológico dos seres vivos. Uma das funções deste sistema é o ajuste do relógio biológico, controlando o sono e o apetite. Através de um marca-passo interno que se encontra no cérebro, o ritmo circadiano regula tanto os ritmos materiais quanto os psicológicos, o que pode influenciar em atividade como: digestão em vigília, renovação de células e controle de temperatura corporal.
15 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
16 Prospectivo: 1. Relativo ao futuro. 2. Suposto, possível; esperado. 3. Relativo à preparação e/ou à previsão do futuro quanto à economia, à tecnologia, ao plano social etc. 4. Em geologia, é relativo à prospecção.
17 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
18 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
19 Genótipo: Composição genética de um indivíduo, ou seja, os genes que ele tem.
20 Alzheimer: Doença degenerativa crônica que produz uma deterioração insidiosa e progressiva das funções intelectuais superiores. É uma das causas mais freqüentes de demência. Geralmente começa a partir dos 50 anos de idade e tem incidência similar entre homens e mulheres.
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