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Infecções do trato respiratório inferior na infância: estudo apresenta evidências para reduzir a prescrição de antibióticos

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Testes e tratamentos excessivos em pediatria são questões bem conhecidas no campo da qualidade do atendimento. As crianças são vulneráveis, com um curso clínico potencialmente de mudança rápida, o que significa que podem ter mais investigações do que um adulto, e a prescrição inadequada de medicamentos é mais comum.

Testes excessivos e tratamento excessivo de crianças são especialmente proeminentes em doenças infecciosas, quando a febre1 ou outros sintomas2, como tosse, podem ser inespecíficos e podem ser de origem viral ou bacteriana.

Com a implementação de medidas de saúde3 pública, como a vacinação, o espectro de patógenos infecciosos mudou. As infecções4 mais comuns, incluindo infecções4 do trato respiratório inferior, são induzidas por vírus5 e apresentam alta prevalência6 de uso indevido de alguns medicamentos, como antibióticos.

A resistência aos antibióticos é uma ameaça global à saúde3 pública. Os antibióticos são muito comumente prescritos para crianças que apresentam infecções4 do trato respiratório inferior (ITRIs) não complicadas, mas há pouca evidência de ensaios clínicos7 randomizados sobre a eficácia dos antibióticos, tanto no geral quanto entre os principais subgrupos clínicos.

No estudo ARTIC PC, pesquisadores avaliaram se a amoxicilina reduz a duração dos sintomas2 moderadamente ruins em crianças que apresentam ITRI não complicada (não pneumônica) na atenção primária, em geral e nos principais subgrupos clínicos. Os resultados foram publicados no The Lancet.

Saiba mais sobre "Doenças respiratórias", "Usos e abusos dos antibióticos" e "A resistência aos antibióticos e as superbactérias".

O ARTIC PC foi um estudo duplo-cego8, randomizado9 e controlado por placebo10 realizado em 56 clínicas gerais na Inglaterra. As crianças elegíveis foram aquelas com idade entre 6 meses e 12 anos que se apresentavam na atenção primária com IRTI aguda não complicada considerada de origem infecciosa, onde a pneumonia11 não era suspeita clinicamente, com sintomas2 por menos de 21 dias.

Os pacientes foram designados aleatoriamente em uma proporção de 1:1 para receber amoxicilina 50 mg/kg por dia ou suspensão oral de placebo10, em três doses por via oral divididas por 7 dias. Pacientes e investigadores foram mascarados para a atribuição de tratamento.

O desfecho primário foi a duração dos sintomas2 classificados como moderadamente ruins ou piores (medidos por meio de um diário validado) por até 28 dias ou até a resolução dos sintomas2. O desfecho primário e a segurança foram avaliados na população com intenção de tratar.

Entre 9 de novembro de 2016 e 17 de março de 2020, 432 crianças (sem incluir seis que retiraram a permissão para o uso de seus dados após a randomização) foram aleatoriamente designadas para o grupo de antibióticos (n = 221) ou o grupo de placebo10 (n = 211).

Dados completos para a duração dos sintomas2 estavam disponíveis para 317 (73%) pacientes; os dados em falta foram imputados para a análise primária.

As durações medianas dos sintomas2 moderadamente ruins ou piores foram semelhantes entre os grupos (5 dias [IQR 4-11] no grupo de antibióticos vs 6 dias [4-15] no grupo de placebo10; razão de risco [HR] 1,13 [IC 95% 0,90-1,42]).

Não foram observadas diferenças para o resultado primário entre os grupos de tratamento nos cinco subgrupos clínicos pré-especificados (pacientes com sinais12 torácicos, febre1, avaliação médica de indisposição, expectoração13 ou chocalho no peito14 e falta de ar).

As estimativas da análise de caso completo e uma análise por protocolo foram semelhantes à análise de dados imputada.

O estudo concluiu que é improvável que a amoxicilina para infecções4 torácicas não complicadas em crianças seja clinicamente eficaz, tanto em geral quanto para subgrupos-chave para os quais os antibióticos são comumente prescritos.

A menos que haja suspeita de pneumonia11, os médicos devem fornecer conselhos sobre proteção, mas não prescrever antibióticos para a maioria das crianças que apresentam infecções4 torácicas.

Leia sobre "Pneumonia11 na infância" e "Uso de medicamentos em crianças".

 

Fonte: The Lancet, publicação em 22 de setembro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Infecções do trato respiratório inferior na infância: estudo apresenta evidências para reduzir a prescrição de antibióticos. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1403095/infeccoes-do-trato-respiratorio-inferior-na-infancia-estudo-apresenta-evidencias-para-reduzir-a-prescricao-de-antibioticos.htm>. Acesso em: 8 dez. 2021.

Complementos

1 Febre: É a elevação da temperatura do corpo acima dos valores normais para o indivíduo. São aceitos como valores de referência indicativos de febre: temperatura axilar ou oral acima de 37,5°C e temperatura retal acima de 38°C. A febre é uma reação do corpo contra patógenos.
2 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
3 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
4 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
5 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
6 Prevalência: Número de pessoas em determinado grupo ou população que são portadores de uma doença. Número de casos novos e antigos desta doença.
7 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
8 Estudo duplo-cego: Denominamos um estudo clínico “duplo cego” quando tanto voluntários quanto pesquisadores desconhecem a qual grupo de tratamento do estudo os voluntários foram designados. Denominamos um estudo clínico de “simples cego” quando apenas os voluntários desconhecem o grupo ao qual pertencem no estudo.
9 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
10 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
11 Pneumonia: Inflamação do parênquima pulmonar. Sua causa mais freqüente é a infecção bacteriana, apesar de que pode ser produzida por outros microorganismos. Manifesta-se por febre, tosse, expectoração e dor torácica. Em pacientes idosos ou imunodeprimidos pode ser uma doença fatal.
12 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
13 Expectoração: Ato ou efeito de expectorar. Em patologia, é a expulsão, por meio da tosse, de secreções provenientes da traqueia, brônquios e pulmões; escarro.
14 Peito: Parte superior do tronco entre o PESCOÇO e o ABDOME; contém os principais órgãos dos sistemas circulatório e respiratório. (Tradução livre do original
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