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Mecanismo sináptico subjacente ao aumento da serotonina evita o vício em cocaína em camundongos

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Ao contrário do que se pensa, a cocaína provoca dependência apenas em 20% dos consumidores. Mas o que acontece em seus cérebros quando perdem o controle de seu consumo? Graças a um método experimental recente, neurocientistas da Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça, revelaram um mecanismo cerebral específico da cocaína, que tem a particularidade de desencadear um aumento maciço da serotonina além do aumento da dopamina1 comum a todas as drogas.

Na verdade, a serotonina atua como um freio intrínseco à superexcitação do sistema de recompensa provocado pela dopamina1, o neurotransmissor que causa o vício. Esses resultados foram publicados na revista Science.

Leia mais sobre "Dependência de cocaína", "Transtornos devidos ao abuso de drogas" e "Abuso da cocaína - repercussões no cérebro2 e no organismo".

O estudo mostrou que níveis elevados de serotonina podem prevenir o desenvolvimento da busca compulsiva de cocaína e do vício em camundongos. Essas descobertas ajudam a resolver os marcadores biológicos de risco de dependência.

Embora estudos anteriores tenham sugerido que a eficácia diferencial do sistema da serotonina cerebral poderia desempenhar um papel no desenvolvimento do vício em cocaína, os circuitos e processos cerebrais relevantes que fundamentam a transição do uso casual para o compulsivo permanecem indefinidos.

Neste estudo, Yue Li e colegas relatam a descoberta de um mecanismo que revela um papel modulador da serotonina na redução da probabilidade de transição para compulsão por cocaína e, eventualmente, vício em camundongos.

Os pesquisadores relatam que, embora a sinalização da dopamina1 mesolímbica seja suficiente para impulsionar a compulsão, os psicoestimulantes como a cocaína também aumentam a serotonina extracelular (5-HT) ao inibir a recaptação.

Usou-se camundongos carregando um transportador que não se liga mais à cocaína para abolir os transientes de 5-HT durante a autoadministração da droga. Os camundongos mostraram uma transição aprimorada para a compulsão. Por outro lado, a elevação farmacológica de 5-HT reverteu a taxa inerentemente alta de transição para a compulsão com autoestimulação optogenética de dopamina1.

O efeito bidirecional no comportamento é explicado pela depressão pré-sináptica das sinapses do córtex orbitofrontal para o estriado dorsal induzidas por 5-HT via receptores 5-HT1B. Consequentemente, em camundongos sem o receptor 5-HT1B específicos para projeção, a fração de indivíduos que se autoadministram cocaína compulsivamente foi elevada.

Assim, foi demonstrado que a cocaína se liga aos transportadores de serotonina (5-HT) para bloquear a recaptação de 5-HT. A 5-HT extracelular elevada ativa os receptores 5-HT1B e causa depressão pré-sináptica de uma projeção do córtex orbitofrontal para o estriado dorsal. Essas mudanças reduzem a probabilidade de induzir a potenciação pós-sináptica nessas sinapses, o que acaba levando à compulsão.

De acordo com os autores, os resultados sugerem que a serotonina desempenha um papel essencial na modulação do risco de desenvolver dependência. “Estudos adicionais devem esclarecer o mecanismo neural subjacente à modulação da serotonina da transição para compulsão na adição de drogas, quais agentes específicos para receptores de serotonina podem ser usados ​​e quando esses agentes podem ser administrados para potencialmente tratar a dependência de drogas”, escrevem Katsuhiko Miyazaki e Kayoko Miyazaki em uma perspectiva relacionada.

Veja também sobre "O papel dos neurotransmissores no organismo", "Síndrome serotoninérgica3" e "Síndrome4 de abstinência da cocaína".

 

Fontes:
Science, Vol. 373, Nº 6560, em 10 de setembro de 2021.
EurekAlert!, notícia publicada em 09 de setembro de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. Mecanismo sináptico subjacente ao aumento da serotonina evita o vício em cocaína em camundongos. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1401540/mecanismo-sinaptico-subjacente-ao-aumento-da-serotonina-evita-o-vicio-em-cocaina-em-camundongos.htm>. Acesso em: 18 out. 2021.

Complementos

1 Dopamina: É um mediador químico presente nas glândulas suprarrenais, indispensável para a atividade normal do cérebro.
2 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
3 Síndrome serotoninérgica: Síndrome serotoninérgica ou síndrome da serotonina é caracterizada por uma tríade de alterações do estado mental (ansiedade, agitação, confusão mental, hipomania, alucinações e coma), das funções motoras (englobando tremores, mioclonias, hipertonia, hiperreflexia e incoordenação) e do sistema nervoso autônomo (febre, sudorese, náuseas, vômitos, diarreia e hipertensão). Ela pode ter causas diversas, mas na maioria das vezes ocorre por uma má interação medicamentosa, quando dois ou mais medicamentos que elevam a neurotransmissão serotoninérgica por meio de distintos mecanismos são utilizados concomitantemente ou em overdose.
4 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
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