Grande estudo aponta riscos de trocar cigarros de tabaco por vapes
Os vapes, ou cigarros eletrônicos, foram comercializados como uma alternativa mais segura e sem fumaça aos cigarros tradicionais, sendo até promovidos como uma ferramenta para ajudar fumantes a largar o vício. Seus sabores frutados e designs modernos reforçaram ainda mais a percepção de que eram substitutos menos nocivos aos produtos de tabaco convencionais. Embora se saiba que parar de fumar reduz o risco de câncer1 ao longo do tempo, evidências crescentes sugerem que a transição para cigarros eletrônicos pode não ser tão inofensiva assim.
Em um estudo recente publicado na revista Nature Medicine, pesquisadores analisaram dados de saúde2 de mais de 4,5 milhões de pessoas na Coreia do Sul para investigar se o uso de cigarros eletrônicos após parar de fumar estava associado a um risco aumentado de câncer1 de pulmão3 e de morte pela doença.
Constatou-se que essa mudança não oferecia a proteção que muitos poderiam esperar. Em comparação com pessoas que pararam de fumar completamente, aquelas que migraram para os cigarros eletrônicos enfrentaram um risco significativamente maior de desenvolver e morrer de câncer1 de pulmão3. Elas apresentaram um risco 56% maior de contrair a doença e o dobro da probabilidade de morrer em decorrência dela. No entanto, a transição para vapes ou cigarros eletrônicos ainda resultou em desfechos melhores do que continuar fumando cigarros comuns.
O câncer1 de pulmão3 é o tipo de câncer1 mais diagnosticado e a principal causa de morte por câncer1 no mundo, considerando homens e mulheres em conjunto. Estima-se que, somente em 2022, tenham ocorrido 2,5 milhões de novos casos e 1,8 milhão de mortes pela doença em todo o mundo.
Embora muitas causas do câncer1 de pulmão3 estejam além do controle das pessoas, o tabagismo é um fator de risco4 sobre o qual é possível agir. Um grande número de estudos aponta que parar de fumar pode fazer uma diferença real.
O risco aumenta de acordo com a quantidade e o tempo de consumo, sendo maior entre fumantes atuais do que entre ex-fumantes. Os cigarros eletrônicos aproveitaram esse cenário e surgiram com uma promessa atraente: uma alternativa mais segura ao hábito de fumar tradicional.
Como não queimam tabaco, foram amplamente vistos como menos nocivos, uma percepção que levou alguns países e até especialistas em saúde2 a promovê-los como uma ferramenta para ajudar as pessoas a parar de fumar.
O câncer1 de pulmão3 leva anos, às vezes décadas, para se desenvolver, o que tornou muito difícil entender os efeitos do uso de cigarros eletrônicos no organismo ao longo do tempo. A maioria dos estudos registrou apenas efeitos de curto prazo, como tosse persistente ou irritação na garganta5. Os pesquisadores precisavam descobrir se esses dispositivos são realmente tão seguros quanto se imagina a longo prazo.
Saiba mais sobre "Tabagismo", "Cigarro eletrônico" e "Câncer1 de pulmão3".
Para responder a essa pergunta, pesquisadores recorreram a um vasto conjunto de dados do Programa Nacional de Triagem de Saúde2 da Coreia do Sul. O estudo abrangeu 4.524.895 pessoas e baseou-se em exames de saúde2 disponíveis para todos os trabalhadores com 20 anos ou mais e para os demais cidadãos com 40 anos ou mais.
Ao acompanhar os dados coletados dos participantes ao longo de vários anos, os pesquisadores analisaram como os hábitos de fumar e de usar cigarros eletrônicos (vaping6) influenciavam a incidência7 de câncer1 de pulmão3. Eles classificaram os participantes em fumantes ativos, pessoas que pararam de fumar recentemente (curto prazo) e pessoas que pararam há mais tempo (longo prazo), examinando8 também mais de perto o grupo de alto risco composto por adultos entre 50 e 80 anos.
Os dados mostraram que, quanto mais tempo as pessoas ficavam sem fumar cigarros, maior era a redução do risco de câncer1 de pulmão3; no entanto, o uso de cigarros eletrônicos interrompia esse progresso. Aqueles que haviam parado de fumar há mais tempo (há cinco anos ou mais) apresentavam um risco significativamente maior de câncer1 de pulmão3 se utilizassem cigarros eletrônicos, em comparação com aqueles que não os utilizavam.
Mesmo entre aqueles que pararam de fumar há menos tempo (menos de cinco anos), a redução do risco diminuía quando migravam para os cigarros eletrônicos. No grupo de alto risco, a transição para cigarros eletrônicos foi associada a um risco 91% maior de desenvolver câncer1 de pulmão3 e a uma probabilidade 92% maior de morte pela doença, em comparação com aqueles que abandonaram o hábito completamente.
Os pesquisadores também ressaltam que os cigarros eletrônicos não são quimicamente inofensivos. Eles contêm substâncias cancerígenas, como o formaldeído, e metais tóxicos, como chumbo, níquel e cromo. Eles enfatizam que, embora o estudo não tenha conseguido provar que o uso de cigarros eletrônicos causa câncer1 de pulmão3 diretamente, ele revelou que o uso desses dispositivos após parar de fumar pode comprometer alguns dos benefícios obtidos com a interrupção total do tabagismo.
Os dados apresentados neste estudo podem ajudar médicos e especialistas em saúde2 pública a rever a narrativa comum que apresenta os cigarros eletrônicos como uma opção segura para ex-fumantes que consideram utilizá-los – ou que já os utilizam – como substitutos de longo prazo para os cigarros convencionais.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Uso de cigarros eletrônicos após a cessação do tabagismo e risco de câncer1 de pulmão3
Os cigarros eletrônicos (e-cigarros) ganharam popularidade como uma alternativa menos nociva aos cigarros convencionais; no entanto, as associações entre o uso desses dispositivos e o risco de câncer1 de pulmão3 após a cessação do tabagismo permanecem incertas.
Neste estudo, avaliou-se 4.524.895 adultos com histórico de tabagismo convencional que participaram do Programa Nacional de Triagem de Saúde2 da Coreia em 2018 (linha de base), com registros anteriores do período de 2012 a 2014. Os participantes foram classificados como fumantes atuais, ex-fumantes recentes ou ex-fumantes de longa data, sendo acompanhados até dezembro de 2023.
O uso diário de cigarros eletrônicos na linha de base foi utilizado para definir o uso desses dispositivos após a cessação do tabagismo. A incidência7 de câncer1 de pulmão3 e a mortalidade9 específica por câncer1 de pulmão3 (MECP) foram avaliadas utilizando modelos de Cox multivariáveis.
Ao longo de 24.182.543 pessoas-ano de acompanhamento, ocorreram 35.887 casos de câncer1 de pulmão3 e 12.807 eventos de MECP. Em comparação com aqueles que cessaram completamente o tabagismo, o uso de cigarros eletrônicos após a cessação foi associado a riscos mais elevados de incidência7 de câncer1 de pulmão3 (razão de risco ajustada [aHR] 1,56; intervalo de confiança [IC] de 95%: 1,24–1,97) e de MECP (aHR 2,00; IC de 95%: 1,28–3,15).
As associações apresentaram a mesma direção tanto entre ex-fumantes recentes quanto entre ex-fumantes de longa data, sendo mais pronunciadas no subgrupo de alto risco (incidência7: aHR 1,91; IC de 95%: 1,44–2,53; MECP: aHR 1,92; IC de 95%: 1,13–3,24).
Embora não seja possível estabelecer uma relação de causalidade, esses achados sugerem que o uso de cigarros eletrônicos após a cessação do tabagismo pode atenuar os benefícios da cessação completa para a prevenção do câncer1 de pulmão3.
Leia sobre "Substâncias cancerígenas - a importância de conhecê-las" e "Parar de fumar: como é".
Fontes:
Nature Medicine, publicação em 08 de junho de 2026.
Medical Xpress, notícia publicada em 17 de junho de 2026.















