Uso de um medicamento barato durante cirurgias de alto risco reduz transfusões de sangue
Uma política hospitalar para aumentar o uso de ácido tranexâmico (TXA) no período perioperatório reduziu as transfusões de sangue1 durante cirurgias não cardíacas de grande porte, sem impacto aparente em eventos de coagulação2, segundo um ensaio clínico randomizado3 por agrupamentos realizado no Canadá.
Entre mais de 8.000 pacientes submetidos a cirurgias de alto risco, o uso rotineiro de TXA reduziu a probabilidade de transfusões em 31% em comparação com o placebo4, relatou Brett Houston, MD, PhD, da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, durante uma apresentação na reunião anual da Sociedade Americana de Hematologia.
O tromboembolismo5 venoso (TEV) em 90 dias (o desfecho primário de segurança do estudo TRACTION) ocorreu em 2,1% dos pacientes no grupo de TXA e em 2,2% daqueles no grupo placebo4.
O sangramento perioperatório é uma das principais indicações para transfusões de hemácias6 em pacientes hospitalizados, “mas o suprimento de sangue1 está cada vez mais limitado devido ao aumento da demanda e à diminuição do número de doadores, o que reforça a necessidade de estratégias que reduzam ainda mais as transfusões”, disse Houston.
O ácido tranexâmico é um medicamento antifibrinolítico7 barato (aproximadamente US$ 3 por grama8) e amplamente disponível, com um perfil de segurança estabelecido. O TXA demonstrou capacidade de reduzir as transfusões perioperatórias em cirurgias cardíacas e ortopédicas e também mostrou reduzir as transfusões em pacientes com trauma recente e hemorragia9 pós-parto.
“No entanto, a adoção do TXA tem sido variável, em parte devido a preocupações não resolvidas sobre potenciais complicações trombóticas10, particularmente entre pacientes com câncer”, disse Houston. No estudo TRACTION, o uso de TXA não aumentou a incidência11 de TEV nesse grupo de alto risco, e o benefício da transfusão12 foi consistente em pacientes com câncer13 e em outros subgrupos também, incluindo por idade, especialidade cirúrgica ou urgência14 e risco basal de transfusão12.
Ela observou que, a cada ano, aproximadamente 100 milhões de cirurgias não cardíacas com internação são realizadas. Se a estratégia do estudo fosse amplamente implementada, 1 a 2 milhões de pessoas poderiam potencialmente evitar transfusões perioperatórias de hemácias6 e 4 a 10 milhões de unidades de hemácias6 poderiam ser economizadas.
Leia sobre "Transfusão12 de sangue1", "Doação de sangue1" e "Hemorragias15".
O estudo TRACTION teve como objetivo ampliar as descobertas do POISE-3, um grande estudo controlado por placebo4 que mostrou que o TXA perioperatório para cirurgia não cardíaca levou a sangramentos significativamente menos graves e menor necessidade de transfusões de sangue1 entre pacientes de alto risco. Esse ensaio clínico também ficou muito próximo de atingir seu principal objetivo de segurança, um composto de lesão16 miocárdica, acidente vascular cerebral17 não hemorrágico18, trombose19 arterial periférica ou tromboembolismo5 venoso proximal20 sintomático21 em 30 dias.
Mas o estudo TRACTION foi projetado para focar na política hospitalar de administração de ácido tranexâmico, e não na administração individualizada por pacientes. “Estudamos a eficácia do ácido tranexâmico no contexto de cirurgias de alto risco, e não em pacientes de alto risco”, disse Houston.
O ensaio foi integrado à rotina de atendimento, com os desfechos acompanhados em grande parte pelo prontuário eletrônico. Como resultado, o estudo custou apenas cerca de US$ 1,3 milhão (um ensaio clínico padrão desse porte normalmente custaria entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões, estimou Houston).
“Vocês fizeram um excelente trabalho”, disse Martin Dreyling, MD, PhD, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, durante a sessão de perguntas e respostas após a apresentação.
“Isso é extremamente relevante clinicamente, melhora o atendimento ao paciente, é barato e realmente mostra que muitas coisas que fazemos em ensaios clínicos22 padrão são um desperdício de dinheiro”, acrescentou Dreyling, que também é coordenador da iniciativa europeia contra a burocracia em ensaios clínicos22.
Confira a seguir o resumo do estudo apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Hematologia e publicado no periódico Blood.
Política hospitalar de administração de ácido tranexâmico para reduzir transfusões em cirurgias não cardíacas de grande porte: o estudo TRACTION
Ainda não se sabe ao certo se uma política hospitalar de administração de ácido tranexâmico a pacientes submetidos a cirurgias não cardíacas de grande porte reduz com segurança a transfusão12 de hemácias6 sem aumentar o risco trombótico23.
Realizou-se então um ensaio multicêntrico, baseado em registro, randomizado3, controlado por placebo4, em crossover por agrupamentos (clusters), que incluiu pacientes submetidos a cirurgias não cardíacas com alto risco de necessitar de transfusão12 de concentrado hemácias6.
Os hospitais foram randomizados em intervalos de 4 semanas para uma política hospitalar de administração intraoperatória de ácido tranexâmico ou placebo4. Os desfechos co-primários de eficácia e segurança foram a proporção de pacientes que receberam transfusão12 de hemácias6 durante a internação hospitalar e a proporção de pacientes diagnosticados com tromboembolismo5 venoso em até 90 dias.
A segurança da política de ácido tranexâmico em comparação ao placebo4 foi baseada em uma margem de não inferioridade, na qual o limite superior do intervalo de confiança bilateral de 95% para a razão de chances de tromboembolismo5 venoso deveria ser inferior a 1,47.
Os desfechos secundários incluíram o número de unidades de hemácias6 transfundidas, diagnósticos hospitalares de infarto do miocárdio24, acidente vascular cerebral17, trombose venosa profunda25 ou embolia26 pulmonar, tempo de internação hospitalar, admissão em unidade de terapia intensiva27, sobrevida28 hospitalar e sobrevida28 geral até o 90º dia.
Os desfechos co-primários foram avaliáveis para 8.273 pacientes inscritos em 10 hospitais canadenses. As características basais foram semelhantes entre os dois grupos. As especialidades cirúrgicas mais comuns incluíram cirurgia geral (n = 2.742; 33,1%), ginecologia (n = 1.540; 18,6%), urologia (n = 1.434; 17,3%), cirurgia vascular29 (n = 582; 7,0%) e cirurgia da coluna vertebral30 (n = 461; 5,6%). A maioria da população foi submetida à cirurgia por indicação oncológica (n = 5.002; 60,5%).
A proporção de pacientes que receberam transfusão12 de hemácias6 durante a internação hospitalar foi de 7,4% (306/4.156) no grupo do ácido tranexâmico e de 9,8% (403/4.117) no grupo placebo4 (razão de chances, 0,69; intervalo de confiança [IC] de 95%, 0,54 a 0,89; diferença absoluta, -2,4 pontos percentuais; IC de 95%, -0,8 a -4,6%).
A proporção de pacientes com diagnóstico31 de tromboembolismo5 venoso foi de 2,1% (86/4.156) no grupo do ácido tranexâmico e de 2,2% (90/4.117) no grupo placebo4 (razão de chances, 0,96; IC de 95%, 0,64 a 1,42).
As análises utilizaram modelos de efeitos mistos para levar em consideração o desenho do estudo de crossover por agrupamentos (clusters). Os pacientes do grupo do ácido tranexâmico receberam menos unidades de hemácias6 em comparação com os do grupo placebo4 (média de 2,5 unidades [± 1,43 unidades] vs. 0,34 unidades [± 1,86 unidades], p <0,01).
Não houve diferença nos diagnósticos hospitalares de infarto do miocárdio24, acidente vascular cerebral17, trombose venosa profunda25 ou embolia26 pulmonar. Da mesma forma, não houve diferença na duração da internação hospitalar, admissão na unidade de terapia intensiva27, sobrevida28 hospitalar ou sobrevida28 em 90 dias entre o grupo do ácido tranexâmico e o grupo placebo4.
O estudo concluiu que, em pacientes submetidos a cirurgia não cardíaca de grande porte, uma política hospitalar de administração de ácido tranexâmico reduziu a transfusão12 de hemácias6 sem aumentar o tromboembolismo5 venoso.
Veja também sobre "Diferenças entre trombose venosa profunda25 e tromboembolismo5 venoso" e "Coagulopatias".
Fontes:
Blood, publicação em 24 de novembro de 2025.
MedPage Today, notícia publicada em 09 de dezembro de 2025.









