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MDMA, conhecido como Ecstasy ou Molly, pode trazer alívio quando combinado com psicoterapia para aqueles com transtorno de estresse pós-traumático grave

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Em um passo importante para a aprovação médica, o MDMA, uma droga ilegal popularmente conhecida como Ecstasy ou Molly, mostrou trazer alívio para aqueles que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) grave quando combinada com psicoterapia.

Das 90 pessoas que participaram do novo estudo, que foi publicado na revista Nature Medicine, aqueles que receberam MDMA durante a terapia experimentaram uma redução significativamente maior na gravidade de seus sintomas1 em comparação com aqueles que receberam terapia e um placebo2 inativo. Dois meses após o tratamento, 67% dos participantes no grupo de MDMA não se qualificaram mais para o diagnóstico3 de TEPT, em comparação com 32% no grupo de placebo2.

Os participantes incluíam veteranos de combate, socorristas e vítimas de agressão sexual, tiroteios em massa, violência doméstica ou traumas infantis. Todos tinham TEPT grave e haviam sido diagnosticados, em média, há mais de 14 anos. Muitos tinham histórico de transtorno por uso de álcool e outras substâncias e 90% haviam pensado em suicídio. O estudo incluiu dados coletados por 80 terapeutas em 15 locais nos Estados Unidos, Canadá e Israel.

O MDMA não produziu efeitos colaterais4 adversos graves. Alguns participantes experimentaram temporariamente sintomas1 leves, como náuseas5 e perda de apetite.

Leia sobre "Estresse pós-traumático", "Alucinógenos", "Trauma psicológico" e "Ideação suicida".

Antes que a terapia assistida por MDMA possa ser aprovada para uso terapêutico, a Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, precisa de um segundo estudo positivo de Fase 3, que está em andamento com 100 participantes. A aprovação pode vir já em 2023.

Especialistas em saúde6 mental dizem que esta pesquisa – o primeiro ensaio de Fase 3 conduzido em terapia assistida por psicodélicos – pode abrir caminho para mais estudos sobre o potencial do MDMA para ajudar a resolver outras condições de saúde6 mental de difícil tratamento, incluindo abuso de substâncias, transtorno obsessivo-compulsivo, fobias7, transtornos alimentares, depressão, ansiedade do fim da vida e ansiedade social em adultos autistas.

Esses resultados, semanas após um estudo do New England Journal of Medicine que destacou os benefícios do tratamento da depressão com psilocibina, o ingrediente psicoativo dos cogumelos alucinógenos, entusiasmaram cientistas, psicoterapeutas e empresários no campo de rápida expansão da medicina psicodélica. Eles dizem que é apenas uma questão de tempo até que a Food and Drug Administration conceda a aprovação para que os compostos psicoativos sejam usados terapeuticamente.

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) representa um grande problema de saúde6 pública para o qual os tratamentos atualmente disponíveis são modestamente eficazes. No novo estudo, pesquisadores relatam os resultados de um ensaio clínico randomizado8, duplo-cego, controlado por placebo2, multilocal de fase 3 para testar a eficácia e segurança da terapia assistida por 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA) para o tratamento de pacientes com TEPT grave, incluindo aqueles com comorbidades9 comuns, como dissociação, depressão, histórico de transtornos por uso de álcool e substâncias e trauma na infância.

Após a eliminação da medicação psiquiátrica, os participantes (n = 90) foram randomizados 1:1 para receber terapia manualizada com MDMA ou com placebo2, combinada com três sessões de terapia preparatórias e nove integrativas.

Os sintomas1 de TEPT, medidos com a Escala de TEPT Administrada pelo Clínico do DSM-5 (CAPS-5, o desfecho primário) e o comprometimento funcional, medido com a Escala de Incapacidade de Sheehan (SDS, o desfecho secundário) foram avaliados no início e em 2 meses após a última sessão experimental. Eventos adversos e suicídio foram rastreados ao longo do estudo.

Verificou-se que o MDMA induz uma atenuação significativa e robusta no escore CAPS-5 em comparação com o placebo2 (P <0,0001, d = 0,91) e diminui significativamente o escore total do SDS (P = 0,0116, d = 0,43).

A mudança média nas pontuações do CAPS-5 em participantes que completaram o tratamento foi de -24,4 (desvio padrão 11,6) no grupo MDMA e -13,9 (desvio padrão 11,5) no grupo de placebo2.

O MDMA não induziu eventos adversos de potencial de abuso, suicídio ou prolongamento do intervalo QT.

Esses dados indicam que, em comparação com a terapia manualizada com placebo2 inativo, a terapia assistida por MDMA é altamente eficaz em indivíduos com transtorno de estresse pós-traumático grave e o tratamento é seguro e bem tolerado, mesmo naqueles com comorbidades9.

Concluiu-se, assim, que a terapia assistida por MDMA representa um tratamento inovador em potencial que merece uma avaliação clínica acelerada.

Veja também sobre "Terapia cognitivo10 comportamental", "Transtornos dissociativos", "Agressão sexual" e "Transtornos devidos ao abuso de drogas".

 

Fontes:
Nature Medicine, publicação em 10 de maio de 2021.
The New York Times, notícia publicada em 03 de maio de 2021.

 

NEWS.MED.BR, 2021. MDMA, conhecido como Ecstasy ou Molly, pode trazer alívio quando combinado com psicoterapia para aqueles com transtorno de estresse pós-traumático grave. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1394425/mdma-conhecido-como-ecstasy-ou-molly-pode-trazer-alivio-quando-combinado-com-psicoterapia-para-aqueles-com-transtorno-de-estresse-pos-traumatico-grave.htm>. Acesso em: 23 out. 2021.

Complementos

1 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
2 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
3 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
4 Efeitos colaterais: 1. Ação não esperada de um medicamento. Ou seja, significa a ação sobre alguma parte do organismo diferente daquela que precisa ser tratada pelo medicamento. 2. Possível reação que pode ocorrer durante o uso do medicamento, podendo ser benéfica ou maléfica.
5 Náuseas: Vontade de vomitar. Forma parte do mecanismo complexo do vômito e pode ser acompanhada de sudorese, sialorréia (salivação excessiva), vertigem, etc .
6 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
7 Fobias: Medo exagerado, falta de tolerância, aversão.
8 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
9 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
10 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
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