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Segurança e imunogenicidade de uma vacina baseada na saliva de mosquito contra doenças transmitidas por esses vetores

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Em modelos animais, a imunidade1 às proteínas2 salivares dos mosquitos protege os animais contra doenças transmitidas por mosquitos. Esses achados fornecem uma justificativa para vacinar contra a saliva do mosquito, em vez do próprio patógeno. Até onde sabemos, nenhuma vacina3 com base em proteína salivar de vetor foi testada quanto à segurança e imunogenicidade em humanos.

O objetivo desse estudo, publicado pelo The Lancet, foi avaliar a segurança e imunogenicidade em humanos da vacina3 de saliva de Anopheles gambiae (AGS-v), uma vacina3 baseada em peptídeos, derivada de quatro proteínas2 salivares de A. gambiae.

Saiba mais sobre "Picadas de pernilongo" e "Vacinas - como funcionam".

Neste estudo randomizado4, controlado por placebo5, duplo-cego, de fase 1, os participantes foram matriculados no Centro Clínico do National Institutes of Health em Bethesda, MD, EUA. Os participantes eram elegíveis se fossem adultos saudáveis, com idades entre 18 e 50 anos, sem histórico de reações alérgicas graves às picadas de mosquito. Os participantes foram divididos aleatoriamente (1:1:1), usando a randomização em bloco e uma sequência de randomização gerada por computador, para o tratamento com 200 nmol de vacina3 AGS-v sozinha, 200 nmol de AGS-v com adjuvante (Montanide ISA 51), ou água estéril como placebo5. Os participantes e os médicos foram mascarados para a atribuição do tratamento.

Os participantes receberam uma injeção subcutânea6 de seu tratamento alocado no dia 0 e no dia 21, seguido de exposição a um mosquito Aedes aegypti não infectado para alimentação no dia 42 para avaliar o risco subsequente de picadas de mosquito em um ambiente controlado.

Os objetivos principais foram segurança e imunogenicidade no dia 42 após a primeira imunização7. Os participantes que receberam pelo menos uma dose do tratamento designado foram avaliados para os objetivos primários e a análise foi feita com a intenção de tratar.

Entre 15 de fevereiro e 10 de setembro de 2017, foram matriculados e designados aleatoriamente 49 participantes adultos saudáveis ​​para a vacina3 adjuvante (n = 17), vacina3 sozinha (n = 16) ou grupo placebo5 (n = 16). Cinco participantes não completaram o regime de duas injeções com alimentação do mosquito no dia 42, mas foram incluídos nas análises de segurança.

Nenhuma preocupação sistêmica de segurança foi identificada; no entanto, um participante do grupo da vacina3 adjuvante desenvolveu uma erupção8 cutânea9 eritematosa10 de grau 3 no local da injeção11. Dor, inchaço12, eritema13 e coceira foram os sintomas14 locais mais comumente relatados e aumentaram significativamente no grupo da vacina3 adjuvante em comparação com os outros dois grupos de tratamento (9 [53%] dos 17 participantes do grupo da vacina3 adjuvante, 2 [13%] de 16 no grupo de vacina3 sozinha e 1 [6%] de 16 no grupo de placebo5; p = 0,004).

No dia 42, os participantes que receberam a vacina3 adjuvante tiveram um aumento significativo nos anticorpos15 IgG totais específicos da vacina3 em comparação aos valores basais do que os participantes que receberam a vacina3 sozinha (diferença absoluta da alteração em log10 de 0,64 [IC 95% 0,39 a 0,89]; p = 0,0002) e que receberam placebo5 (0,62 [0,34 a 0,91]; p = 0,0001).

Observou-se um aumento significativo na produção de IFN-γ pelas células16 mononucleares do sangue17 periférico no dia 42 no grupo da vacina3 adjuvante em comparação com o grupo do placebo5 (diferença absoluta da razão log10 da vacina3 estimulada por peptídeos versus controle negativo 0,17 [IC 95% 0,061 a 0,27]; p = 0,009), mas não observou-se diferença entre a produção de IFN-γ no grupo da vacina3 sozinha em comparação com o grupo placebo5 (0,022 [–0,072 a 0,116 ]; p = 0,63).

A AGS-v foi bem tolerada e, quando adjuvante, imunogênica. Esses achados sugerem que a administração de vacinas direcionadas a vetores em humanos é segura e pode ser uma opção viável para lidar com a crescente carga de doenças transmitidas por vetores.

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Fonte: The Lancet, publicação em 11 de junho de 2020.

 

NEWS.MED.BR, 2020. Segurança e imunogenicidade de uma vacina baseada na saliva de mosquito contra doenças transmitidas por esses vetores. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1369908/seguranca-e-imunogenicidade-de-uma-vacina-baseada-na-saliva-de-mosquito-contra-doencas-transmitidas-por-esses-vetores.htm>. Acesso em: 19 out. 2020.

Complementos

1 Imunidade: Capacidade que um indivíduo tem de defender-se perante uma agressão bacteriana, viral ou perante qualquer tecido anormal (tumores, enxertos, etc.).
2 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
3 Vacina: Tratamento à base de bactérias, vírus vivos atenuados ou seus produtos celulares, que têm o objetivo de produzir uma imunização ativa no organismo para uma determinada infecção.
4 Estudo randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle - o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
5 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
6 Injeção subcutânea: Injetar fluido no tecido localizado abaixo da pele, o tecido celular subcutâneo, com uma agulha e seringa.
7 Imunização: Processo mediante o qual se adquire, de forma natural ou artificial, a capacidade de defender-se perante uma determinada agressão bacteriana, viral ou parasitária. O exemplo mais comum de imunização é a vacinação contra diversas doenças (sarampo, coqueluche, gripe, etc.).
8 Erupção: 1. Ato, processo ou efeito de irromper. 2. Aumento rápido do brilho de uma estrela ou de pequena região da atmosfera solar. 3. Aparecimento de lesões de natureza inflamatória ou infecciosa, geralmente múltiplas, na pele e mucosas, provocadas por vírus, bactérias, intoxicações, etc. 4. Emissão de materiais magmáticos por um vulcão (lava, cinzas etc.).
9 Cutânea: Que diz respeito à pele, à cútis.
10 Eritematosa: Relativo a ou próprio de eritema. Que apresenta eritema. Eritema é uma vermelhidão da pele, devido à vasodilatação dos capilares cutâneos.
11 Injeção: Infiltração de medicação ou nutrientes líquidos no corpo através de uma agulha e seringa.
12 Inchaço: Inchação, edema.
13 Eritema: Vermelhidão da pele, difusa ou salpicada, que desaparece à pressão.
14 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
15 Anticorpos: Proteínas produzidas pelo organismo para se proteger de substâncias estranhas como bactérias ou vírus. As pessoas que têm diabetes tipo 1 produzem anticorpos que destroem as células beta produtoras de insulina do próprio organismo.
16 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
17 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
18 Febre Amarela: Doença infecciosa aguda, de curta duração (no máximo 10 dias), gravidade variável, causada pelo vírus da febre amarela, que ocorre na América do Sul e na África. Os sintomas são: febre, dor de cabeça, calafrios, náuseas, vômito, dores no corpo, icterícia (a pele e os olhos ficam amarelos) e hemorragias (de gengivas, nariz, estômago, intestino e urina). A única forma de prevenção é a vacinação contra a doença.
19 Dengue: Infecção viral aguda transmitida para o ser humano através da picada do mosquito Aedes aegypti, freqüente em regiões de clima quente. Caracteriza-se por apresentar febre, cefaléia, dores musculares e articulares e uma erupção cutânea característica. Existe uma variedade de dengue que é potencialmente fatal, chamada dengue hemorrágica.
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