O que há de novo em endocrinologia e metabologia: confira os principais avanços divulgados nos últimos meses

Os últimos meses consolidaram uma fase especialmente dinâmica na endocrinologia e metabologia, com resultados de ensaios clínicos de grande porte e mudanças relevantes em recomendações clínicas. Em paralelo à evolução acelerada da farmacoterapia para obesidade e diabetes (incluindo novas opções orais e combinações), ganham força abordagens que ampliam o cuidado cardiometabólico para além da glicemia, com foco em risco cardiovascular, doença hepática metabólica e desfechos centrados no paciente.
Também se destacam avanços em tecnologia para diabetes (com dados randomizados de sistemas automatizados em diabetes tipo 2), além de marcos regulatórios e clínicos em prevenção de progressão do diabetes tipo 1 e atualizações de diretrizes em áreas clássicas da especialidade, como câncer diferenciado de tireoide.
Confira a seguir os principais destaques em endocrinologia e metabologia dos últimos meses.
- Atualização das diretrizes Standards of Care in Diabetes – 2026 da ADA
- Administração automatizada de insulina no diabetes tipo 2
- EMA recomenda teplizumabe para retardar o início do diabetes tipo 1
- Estudo OASIS: semaglutida oral 25 mg para obesidade e a “era das opções orais”
- Estudo SOUL: semaglutida oral e desfechos cardiovasculares no diabetes tipo 2
- Orforglipron e a nova geração de agonistas orais de GLP-1
- Tirzepatida versus semaglutida: comparações diretas e o refinamento da estratégia antiobesidade
- Semaglutida na esteato hepatite associada à disfunção metabólica (MASH)
- Insulinas semanais: evidência clínica avança com efsitora alfa
- Diretrizes ATA 2025 para câncer diferenciado de tireoide
Atualização das diretrizes Standards of Care in Diabetes – 2026 da ADA
A American Diabetes Association (ADA) publicou a atualização anual dos “Standards of Care in Diabetes – 2026”[1] (padrões de atendimento em diabetes para 2026), reforçando uma abordagem cada vez mais integrada do risco cardiometabólico, do manejo do peso e da estratificação terapêutica por perfis clínicos e comorbidades.
Na prática, a diretriz consolida tendências observadas nos últimos anos: maior ênfase em metas individualizadas, uso mais amplo de tecnologias (como monitores contínuos de glicose e sistemas automatizados em populações selecionadas), orientações sobre padrões alimentares com evidências de prevenção do diabetes tipo 2 e incorporação de evidências recentes de fármacos com benefício além do controle glicêmico.
Administração automatizada de insulina no diabetes tipo 2
Um ensaio clínico multicêntrico, randomizado e controlado (de 13 semanas), publicado no NEJM[2], avaliou sistemas de administração automatizada de insulina, ou automated insulin delivery (AID) em adultos com diabetes tipo 2 em uso de insulina, apontando que a automatização foi associada a uma maior redução nos níveis de hemoglobina glicada.
Os participantes foram alocados (2:1) para AID versus manutenção do método prévio de administração de insulina (controle), com ambos os grupos utilizando monitorização contínua da glicose. O desfecho primário (HbA1c na semana 13) favoreceu AID: a HbA1c reduziu de 8,2±1,4% para 7,3±0,9% no grupo AID versus de 8,1±1,2% para 7,7±1,1% no controle, com diferença ajustada média de -0,6 ponto percentual (IC 95% -0,8 a -0,4; p <0,001). O tempo na faixa alvo de glicose (70-180 mg/dL) aumentou 14 pontos percentuais, com baixa ocorrência de hipoglicemia em ambos os grupos.
Leia sobre "Avanços recentes no tratamento do diabetes" e "O alarmante avanço do diabetes tipo 2 no Brasil".
EMA recomenda teplizumabe para retardar o início do diabetes tipo 1
Em novembro de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA)[3] recomendou conceder autorização de comercialização para teplizumabe (Teizeild) com a indicação de retardar o início do diabetes tipo 1 de estágio 3 em adultos e crianças a partir de 8 anos de idade com diabetes tipo 1 de estágio 2.
A recomendação se baseou em ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo (76 pacientes), no qual o tempo mediano para progressão ao estágio 3 foi de 50 meses no grupo teplizumabe versus 25 meses no grupo placebo. Durante seguimento mediano de 51 meses, 45% (20/44) dos pacientes evoluíram para estágio 3 no grupo tratado versus 72% (23/32) no grupo placebo. Trata-se de um marco relevante por representar uma estratégia modificadora do curso da doença em uma fase pré-sintomática.
Estudo OASIS: semaglutida oral 25 mg para obesidade e a “era das opções orais”
A expansão de opções orais para manejo crônico do peso em pessoas com obesidade ganhou tração com estudos clínicos recentes avaliando semaglutida oral 25 mg para perda ponderal clinicamente significativa em adultos com obesidade. Um estudo publicado no NEJM[4] aponta que a semaglutida na dose de 25 mg pode ser uma opção de tratamento alternativa à semaglutida injetável (2,4 mg) e à semaglutida oral em doses mais elevadas (50 mg) para pessoas com sobrepeso ou obesidade, tendo demonstrado uma redução média maior no peso corporal em comparação com o placebo (-13,6% vs. -2,2%, respectivamente).
Esse movimento é particularmente relevante para adesão e escalabilidade do tratamento, sobretudo em pacientes com barreiras ao uso de terapias injetáveis e naqueles em que os efeitos adversos mais proeminentes das altas doses levam à desistência do tratamento.
Com base no estudo, a FDA[5] aprovou em dezembro o comprimido Wegovy (semaglutida) de 25 mg da Novo Nordisk, o primeiro e, até então, único GLP-1 oral para perda de peso em adultos, reforçando a transição do campo para um portfólio mais amplo de alternativas orais de alta eficácia.
Estudo SOUL: semaglutida oral e desfechos cardiovasculares no diabetes tipo 2
Além do foco tradicional na redução de HbA1c, os últimos meses trouxeram destaque para evidências de desfechos cardiovasculares com semaglutida oral em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. O estudo SOUL, com resultados publicados no NEJM[6], demonstrou que em indivíduos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica, doença renal crônica ou ambas, o uso de semaglutida oral foi associado a um risco significativamente menor de eventos cardiovasculares adversos maiores em comparação com o placebo, sem aumento na incidência de eventos adversos graves.
O estudo amplia o repertório terapêutico para pacientes de alto risco e fortalece a mudança de paradigma na diabetologia: tratar não apenas números, mas riscos e comorbidades, e fazê-lo com uma formulação oral que pode tornar o cuidado mais simples e sustentável para uma parcela ampla de pacientes.
Orforglipron e a nova geração de agonistas orais de GLP-1
Outro destaque no eixo obesidade–diabetes é o avanço de moléculas orais não peptídicas, como orforglipron, com dados clínicos recentes em adultos com obesidade. No estudo publicado no NEJM[7], na semana 72 o orforglipron em múltiplas doses provou ser superior ao placebo quando adicionado a um regime de dieta e exercícios, com perda de peso superior a 11% na dose mais alta.
A relevância aqui é estratégica: agonistas do receptor GLP-1 orais de pequena molécula podem atenuar as limitações das terapias com peptídeos GLP-1, mantendo suas propriedades biológicas. Esses agentes podem ser passíveis de armazenamento, distribuição e administração mais fáceis. Além de ampliar o acesso potencial por via oral, essa classe pode redefinir o “padrão de entrada” do tratamento farmacológico da obesidade e, possivelmente, sua integração com objetivos cardiometabólicos mais amplos.
Veja também sobre "Como os agonistas GLP-1 estão redefinindo o tratamento da obesidade" e "Repercussões cardíacas da obesidade".
Tirzepatida versus semaglutida: comparações diretas e o refinamento da estratégia antiobesidade
Um estudo comparativo entre tirzepatida e semaglutida na obesidade (sem diabetes tipo 2), publicado no NEJM[8], apontou que o tratamento com tirzepatida foi superior ao tratamento com semaglutida em relação à redução de peso e da circunferência da cintura. Esses dados ajudam a calibrar expectativas de eficácia e a discussão de metas de perda ponderal, mas a escolha do esquema ainda deve ser individualizada, considerando resposta clínica, tolerabilidade, perfil de risco, comorbidades e objetivos terapêuticos.
Em paralelo, combinações como cagrilintida-semaglutida, descrita em um estudo também publicado no NEJM[9], reforçam a tendência de “terapias multi-alvo” para potencializar perda ponderal e benefícios metabólicos em populações com diabetes tipo 2 e obesidade. Neste ensaio, a administração de cagrilintida-semaglutida uma vez por semana (na dose de 2,4 mg cada) resultou em maior redução percentual do peso corporal em comparação com o placebo (-13,7% vs. -3,4%, respectivamente).
Semaglutida na esteato hepatite associada à disfunção metabólica (MASH)
A esteato hepatite associada à disfunção metabólica (MASH) vem se consolidando como comorbidade frequente e clinicamente relevante no cuidado cardiometabólico. Resultados recentes com semaglutida em MASH destacam o potencial de intervenções que atuam simultaneamente em peso, inflamação/metabolismo e risco cardiometabólico global.
No estudo publicado no NEJM[10], em pacientes com MASH e fibrose hepática moderada ou avançada, a administração de semaglutida uma vez por semana, na dose de 2,4 mg, melhorou os resultados histológicos do fígado. Para a prática clínica, isso tende a acelerar a integração entre endocrinologia, hepatologia e medicina do estilo de vida, com maior vigilância e tratamento estruturado de MASH, especialmente em grupos de maior risco e prevalência, como pessoas com obesidade e diabetes tipo 2.
Insulinas semanais: evidência clínica avança com efsitora alfa
A busca por regimes que reduzam a carga do tratamento do diabetes inclui insulinas de aplicação semanal. Um estudo clínico recente com insulina efsitora alfa em diabetes tipo 2 reforça essa agenda, com resultados que sustentam a discussão sobre simplificação do esquema enquanto mantendo a eficácia, com potencial impacto na adesão e continuidade do tratamento.
Os resultados publicados no NEJM[11] apontaram que, em adultos com diabetes tipo 2 que não haviam recebido insulina anteriormente, a efsitora administrada uma vez por semana, em um regime de dose fixa, mostrou-se não inferior à glargina administrada uma vez ao dia na redução dos níveis de hemoglobina glicada.
Diretrizes ATA 2025 para câncer diferenciado de tireoide
A American Thyroid Association (ATA)[12] publicou em 2025 uma atualização abrangente das diretrizes para manejo do carcinoma diferenciado de tireoide em adultos. O documento destaca uma construção metodológica apoiada em revisões sistemáticas, com busca final em 1º de julho de 2024, e enfatiza recomendações ao longo da jornada do paciente, desde diagnóstico até seguimento.
Para o endocrinologista, é uma atualização de referência para padronização de decisões sobre estratificação de risco, extensão de tratamento e acompanhamento.
Referências
[1] Standards of Care in Diabetes—2026, disponível em Diabetes Care.
[2] A Randomized Trial of Automated Insulin Delivery in Type 2 Diabetes, disponível em NEJM.
[3] First-in-class treatment to delay onset of type 1 diabetes, disponível em European Medicines Agency.
[4] Oral Semaglutide at a Dose of 25 mg in Adults with Overweight or Obesity, disponível em NEJM.
[5] FDA approves Novo Nordisk's Wegovy® pill, the first and only oral GLP-1 for weight loss in adults , disponível em Novo Nordisk.
[6] Oral Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in High-Risk Type 2 Diabetes, disponível em NEJM.
[7] Orforglipron, an Oral Small-Molecule GLP-1 Receptor Agonist for Obesity Treatment, disponível em NEJM.
[8] Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity, disponível em NEJM.
[9] Cagrilintide–Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity and Type 2 Diabetes, disponível em NEJM.
[10] Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction–Associated Steatohepatitis, disponível em NEJM.
[11] Weekly Fixed-Dose Insulin Efsitora in Type 2 Diabetes without Previous Insulin Therapy, disponível em NEJM.
[12] 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer, disponível em Thyroid.
