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Estatinas mostram menos evidências diretas de benefício entre pacientes com mais de 75 anos: metanálise publicada pelo The Lancet

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Já foi demonstrado que a terapia com estatinas reduz os principais eventos vasculares1 e a mortalidade2 vascular3 em uma ampla gama de indivíduos, mas há incerteza sobre sua eficácia e segurança entre idosos. Para isso, nesta metanálise publicada pelo periódico The Lancet, pesquisadores realizaram uma avaliação de dados de todos os grandes estudos com estatinas para comparar os efeitos da terapia com estatinas em diferentes faixas etárias.

Estudos randomizados de terapia com estatinas foram elegíveis se pretendiam recrutar pelo menos 1.000 participantes com uma duração de tratamento programada para pelo menos 2 anos. Foram analisados dados de participantes individuais de 22 estudos (n=134.537) e dados resumidos detalhados de um estudo (n=12.705) de terapia com estatina versus controle, mais dados individuais de participantes de cinco estudos de terapia mais intensiva versus menos intensiva com estatina (n=39.612).

Os participantes foram subdivididos em seis grupos etários (55 anos ou menos, 56-60 anos, 61-65 anos, 66-70 anos, 71-75 anos e mais de 75 anos). Estimou-se os efeitos em eventos vasculares1 maiores (isto é, eventos coronarianos maiores, acidentes vasculares1 cerebrais e revascularizações coronarianas), mortalidade2 por causa específica e incidência4 de câncer5, assim como a taxa de probabilidade (RR) para 1,0 mmol/L6 de redução do colesterol7 LDL8. Comparou-se reduções de riscos proporcionais em subgrupos de idades diferentes usando testes de χ2 padrão para heterogeneidade quando havia dois grupos, ou tendência quando havia mais de dois grupos.

Saiba mais sobre "Acidente Vascular Cerebral9" e "Redução do LDL colesterol10".

Os resultados mostram que 14.483 (8%) de 186.854 participantes nos 28 ensaios tinham mais de 75 anos na randomização e a duração média de acompanhamento foi de 4,9 anos. No geral, a terapia com estatinas ou um regime de estatina mais intensivo produziu uma redução proporcional de 21% (RR 0,79; IC 95% 0,77–0,81) em eventos vasculares1 maiores para uma redução de 1,0 mmol/L6 no colesterol7 LDL8.

Foi observada uma redução significativa nos principais eventos vasculares1 em todas as faixas etárias. Embora reduções proporcionais em eventos vasculares1 maiores diminuíssem levemente com a idade, essa tendência não foi estatisticamente significativa (p=0,06). No geral, a estatina ou a terapia mais intensiva gerou uma redução proporcional de 24% (RR 0,76; IC 95% 0,73–0,79) nos principais eventos coronarianos por 1,0 mmol/L6 de redução no colesterol7 LDL8 e, com o aumento da idade, observou-se uma tendência a reduções menores de risco proporcional nos principais eventos coronarianos (ptrend=0,009).

Observou-se uma redução proporcional de 25% (RR 0,75; IC 95% 0,73–0,78) no risco de procedimentos de revascularização coronariana com o tratamento com estatina ou com um regime de estatina mais intensivo por 1,0 mmol/L6 de redução do colesterol7 LDL8, que não diferiram significativamente entre os grupos etários (ptrend=0,6). Da mesma forma, as reduções proporcionais no AVC de qualquer tipo (RR 0,84, IC 95% 0,80–0,89) não diferiram significativamente entre os grupos etários (ptrend = 0,7).

Após a exclusão de quatro estudos que incluíram apenas pacientes com insuficiência cardíaca11 ou em diálise12 renal13 (entre os quais a terapia com estatinas não se mostrou eficaz), a tendência a menores reduções proporcionais de risco com o aumento da idade persistiu para eventos coronarianos maiores (ptrend = 0 01), e permaneceu não significante para eventos vasculares1 maiores (ptrend=0,3).

A redução proporcional nos eventos vasculares1 maiores foi semelhante, independentemente da idade, entre os pacientes com doença vascular3 pré-existente (ptrend = 0,2), mas pareceu menor entre os indivíduos mais velhos do que entre os mais jovens que não tinham doença vascular3 (ptrend = 0 05).

Encontrou-se uma redução proporcional de 12% (RR 0,88; IC 95% 0,85–0,91) na mortalidade2 vascular3 por 1,0 mmol/L6 de redução no colesterol7 LDL8, com uma tendência a menores reduções proporcionais com a idade mais avançada (ptrend=0,004), mas esta tendência não persistiu após a exclusão dos ensaios que envolviam pacientes com insuficiência cardíaca11 ou em diálise12 (ptrend=0,2).

A terapia com estatinas não teve efeito em qualquer idade sobre a mortalidade2 não vascular3, morte por câncer5 ou incidência4 de câncer5.

Concluiu-se que a terapia com estatina produz reduções significativas nos principais eventos vasculares1, independentemente da idade, mas há menos evidências diretas de benefício entre pacientes com mais de 75 anos que ainda não apresentam evidências de doença vascular3 oclusiva. Essa limitação está sendo abordada por novos estudos.

Leia sobre "Insuficiência cardíaca11" e "Hemodiálise14".

 

Fonte: The Lancet, volume 393, número 10170, de 2 de fevereiro de 2019.

 

NEWS.MED.BR, 2019. Estatinas mostram menos evidências diretas de benefício entre pacientes com mais de 75 anos: metanálise publicada pelo The Lancet. Disponível em: <https://www.news.med.br/p/medical-journal/1333583/estatinas-mostram-menos-evidencias-diretas-de-beneficio-entre-pacientes-com-mais-de-75-anos-metanalise-publicada-pelo-the-lancet.htm>. Acesso em: 24 abr. 2019.

Complementos

1 Vasculares: Relativo aos vasos sanguíneos do organismo.
2 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
3 Vascular: Relativo aos vasos sanguíneos do organismo.
4 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
5 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
6 Mmol/L: Milimols por litro, unidade de medida que mostra a concentração de uma substância em uma quantidade específica de fluido.
7 Colesterol: Tipo de gordura produzida pelo fígado e encontrada no sangue, músculos, fígado e outros tecidos. O colesterol é usado pelo corpo para a produção de hormônios esteróides (testosterona, estrógeno, cortisol e progesterona). O excesso de colesterol pode causar depósito de gordura nos vasos sangüíneos. Seus componentes são: HDL-Colesterol: tem efeito protetor para as artérias, é considerado o bom colesterol. LDL-Colesterol: relacionado às doenças cardiovasculares, é o mau colesterol. VLDL-Colesterol: representa os triglicérides (um quinto destes).
8 LDL: Lipoproteína de baixa densidade, encarregada de transportar colesterol através do sangue. Devido à sua tendência em depositar o colesterol nas paredes arteriais e a produzir aterosclerose, tem sido denominada “mau colesterol“.
9 Acidente vascular cerebral: Conhecido popularmente como derrame cerebral, o acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico é uma doença que consiste na interrupção súbita do suprimento de sangue com oxigênio e nutrientes para o cérebro, lesando células nervosas, o que pode resultar em graves conseqüências, como inabilidade para falar ou mover partes do corpo. Há dois tipos de derrame, o isquêmico e o hemorrágico.
10 LDL colesterol: Do inglês low-density lipoprotein cholesterol, colesterol de baixa densidade ou colesterol ruim.
11 Insuficiência Cardíaca: É uma condição na qual a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto (débito cardíaco) é insuficiente para suprir as demandas normais de oxigênio e de nutrientes do organismo. Refere-se à diminuição da capacidade do coração suportar a carga de trabalho.
12 Diálise: Quando os rins estão muito doentes, eles deixam de realizar suas funções, o que pode levar a risco de vida. Nesta situação, é preciso substituir as funções dos rins de alguma maneira, o que pode ser feito realizando-se um transplante renal, ou através da diálise. A diálise é um tipo de tratamento que visa repor as funções dos rins, retirando as substâncias tóxicas e o excesso de água e sais minerais do organismo, estabelecendo assim uma nova situação de equilíbrio. Existem dois tipos de diálise: a hemodiálise e a diálise peritoneal.
13 Renal: Relacionado aos rins. Uma doença renal é uma doença dos rins. Insuficiência renal significa que os rins pararam de funcionar.
14 Hemodiálise: Tipo de diálise que vai promover a retirada das substâncias tóxicas, água e sais minerais do organismo através da passagem do sangue por um filtro. A hemodiálise, em geral, é realizada 3 vezes por semana, em sessões com duração média de 3 a 4 horas, com o auxílio de uma máquina, dentro de clínicas especializadas neste tratamento. Para que o sangue passe pela máquina, é necessária a colocação de um catéter ou a confecção de uma fístula, que é um procedimento realizado mais comumente nas veias do braço, para permitir que estas fiquem mais calibrosas e, desta forma, forneçam o fluxo de sangue adequado para ser filtrado.
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