INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028 no Brasil

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) divulgou, no Dia Mundial do Câncer (4 de fevereiro), as estimativas de incidência para o triênio 2026-2028. A projeção aponta 781 mil novos casos da doença por ano no Brasil.
Excluídos os tumores de pele não melanoma (de alta incidência, mas baixa letalidade), o número cai para aproximadamente 518 mil casos anuais. Os dados integram artigo científico publicado na Revista Brasileira de Cancerologia e reforçam o papel crescente do câncer como problema central de saúde pública no país.
Do total estimado (excluindo pele não melanoma), 49,4% dos casos ocorrerão em homens (cerca de 256 mil) e 50,6% em mulheres (cerca de 262 mil). As previsões foram elaboradas com base em dados dos 31 Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), utilizando modelos de predição tempo linear e a razão incidência/mortalidade, em alinhamento com as recomendações da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC).
Os tipos mais frequentes
Entre os homens, o câncer de próstata lidera com folga, correspondendo a 30,5% dos casos novos — cerca de 77.920 casos anuais. Na sequência aparecem os cânceres de cólon e reto (10,3%), traqueia, brônquio e pulmão (7,3%), estômago (5,4%) e cavidade oral (4,8%).
Entre as mulheres, o câncer de mama permanece como o mais incidente, com 30,0% das ocorrências — 78.610 casos estimados por ano. Em seguida vêm os cânceres de cólon e reto (10,5%), de colo do útero (7,4%), de traqueia, brônquio e pulmão (6,4%) e da glândula tireoide (5,1%).
Considerando ambos os sexos em conjunto, apenas seis localizações primárias (mama feminina, próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e colo do útero) concentram cerca de 65% de todos os casos novos esperados no país.
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Tendências que preocupam: cólon e reto em alta, pulmão retoma crescimento
O estudo destaca dois movimentos epidemiológicos relevantes. O primeiro é o aumento expressivo nas taxas de câncer colorretal em ambos os sexos, especialmente nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde as taxas ajustadas ultrapassam 20 casos por 100 mil habitantes. Os autores apontam como fatores determinantes o consumo de ultraprocessados e carne vermelha, o sedentarismo, o excesso de peso e o envelhecimento populacional.
O segundo movimento é a retomada do crescimento do câncer de pulmão após um período de relativa estabilização — particularmente entre as mulheres. Na Região Sul, entre os homens, a taxa ajustada chega a 23,02 por 100 mil, quase o dobro da média nacional. O fenômeno é atribuído ao efeito cumulativo do tabagismo nas décadas passadas e ao crescimento do consumo de cigarros eletrônicos e narguilé, sobretudo entre populações mais jovens.
Desigualdades regionais marcantes
A análise regional revela que o Brasil vive simultaneamente diferentes estágios de transição epidemiológica. Nas Regiões Sul e Sudeste predominam os tumores associados ao envelhecimento e aos estilos de vida urbanos. Já nas Regiões Norte e Nordeste ainda se observam padrões influenciados por fatores infecciosos e pela vulnerabilidade social, como as altas taxas de câncer do colo do útero, doença com grande potencial de prevenção via vacinação contra HPV e rastreamento.
No Amapá, o câncer do colo do útero (taxa ajustada de 31,13 por 100 mil mulheres) supera o de mama em incidência, refletindo barreiras de acesso ao rastreamento e ao tratamento oportuno das lesões precursoras. O câncer de estômago, associado à infecção por H. pylori e a condições socioeconômicas desfavoráveis, segue elevado na Região Norte e em estados como o Ceará.
Para o grupo infantojuvenil (0 a 19 anos), foram estimados 7.560 novos casos anuais, com taxa bruta de 134,81 por 1 milhão. A Região Sul registra as maiores taxas (173,35 por 1 milhão), enquanto a Região Norte apresenta as menores (96,88 por 1 milhão).
O que dizem os especialistas
Na cerimônia de lançamento, realizada na sede do INCA no Rio de Janeiro, autoridades e especialistas destacaram a importância estratégica dos dados. Marcia Sarpa, coordenadora de Prevenção e Vigilância do INCA, afirmou que “as estimativas, mais do que estatísticas, demonstram a importância de planejar e executar ações de prevenção, detecção precoce e acesso oportuno ao tratamento do câncer”.
Mozart Júlio Tabosa Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, ressaltou o papel das estimativas no planejamento assistencial: “Esse instrumento é fundamental porque ele é um farol que guia a capacidade de planejar no território a intervenção, entendendo, inclusive, o conjunto dos equipamentos, das ofertas assistenciais, dos recursos humanos que precisam ser dimensionados e articulados para responder os casos esperados”.
Para Jonas Gonseth-Garcia, coordenador de Determinantes da Saúde da OPAS/OMS no Brasil, “não há boa política pública sem boa evidência”. A publicação é, segundo ele, um instrumento estratégico que ajuda a “antecipar cenários, priorizar ações e orientar investimentos”.
Claudia Mello, secretária estadual de Saúde do Rio de Janeiro, foi direta: “As estimativas deste triênio, 26-28, são uma chamada à ação. O dado de 781 mil casos anuais no Brasil é um alerta, principalmente para nós, do Sudeste, onde a incidência é mais acentuada”.
Elisabete Weiderpass, diretora da IARC, participou por vídeo e defendeu que “ao investir em informação, planejamento e prevenção baseada em evidência, é possível reduzir o sofrimento por câncer, otimizar recursos e avançar rumo a uma sociedade mais saudável e mais equitativa”.
Atenção: estimativas não devem ser comparadas entre edições
Luís Felipe Martins, chefe da Divisão de Vigilância e Análise de Situação do INCA e primeiro autor do estudo, alerta para um ponto metodológico fundamental: os dados não se prestam à construção de séries históricas de incidência nem à comparação direta com edições anteriores da publicação. Metodologias, fontes de dados e populações denominadoras são revisadas a cada triênio, e parte das variações observadas pode refletir aprimoramentos dos sistemas de informação, e não mudanças reais na ocorrência da doença. Para análises de tendência temporal, o INCA recomenda o uso de dados consolidados dos RCBP ou de estudos de séries temporais, desenvolvidos com metodologia padronizada e comparável.
Veja também: "Tratamento do câncer: das primeiras cirurgias aos avanços recentes" e "Quinze sintomas de câncer que muitas mulheres ignoram".
Fontes:
Revista Brasileira de Cancerologia, Vol. 72, Nº 2, em 03 de fevereiro de 2026.
Instituto Nacional de Câncer – INCA, notícia publicada em 04 de fevereiro de 2026.
