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Mudança na identidade do ovário após a menopausa pode contribuir para a inflamação

segunda-feira, 3 de agosto de 2026
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Mudança na identidade do ovário após a menopausa pode contribuir para a inflamação

Acreditava-se que, depois que os ovários haviam passado pela transição para a menopausa, esses órgãos então retraídos e com cicatrizes permaneciam inertes no organismo. No entanto, a descoberta de que os ovários de camundongos idosos são infiltrados por células do sistema imunológico sugere que o órgão pode estar associado a uma inflamação sistêmica após a menopausa.

“Presumíamos que o órgão já tivesse cumprido sua função após a fase reprodutiva”, diz Francesca Duncan, da Universidade Northwestern, em Illinois. “O que descobrimos foi extremamente surpreendente.”

Duncan e seus colegas já haviam publicado um estudo que analisou a composição proteica de ovários de mulheres na pós-menopausa, com idades entre 50 e 75 anos. Eles esperavam que todos os ovários fossem bastante semelhantes, mas Duncan constatou que suas “assinaturas moleculares mudavam drasticamente ao longo das décadas, o que nos indicou que esse órgão não é estático; ele sofre alterações com o passar do tempo”.

Para compreender melhor esse processo, Duncan e sua equipe estudaram mais detalhadamente os ovários de camundongos. Em um novo estudo publicado na revista Molecular Human Reproduction, eles analisaram o tecido e a expressão gênica nos ovários de animais jovens (2 meses de idade), em idade reprodutiva avançada (18 meses) e na fase pós-reprodutiva (24 meses).

Camundongos não apresentam ciclo menstrual como os humanos; o revestimento do útero é reabsorvido, e não eliminado na forma de menstruação. Eles também não passam pela menopausa da mesma maneira que nós, mas suas reservas de óvulos se esgotam com a idade e seus ciclos tornam-se irregulares. “Quando falamos em menopausa, referimo-nos ao declínio da fertilidade e da função hormonal relacionado à idade, e os camundongos passam exatamente por isso”, afirma Duncan.

Leia sobre "Climatério e menopausa: como são", "Conhecendo o sistema imunológico" e "Alguns conceitos ligados à reprodução humana".

Alguns resultados eram esperados: os ovários mais velhos haviam perdido os folículos produtores de óvulos, por exemplo, e apresentavam mais cicatrizes. Além disso, houve uma redução na atividade de genes envolvidos na reprodução e na produção de hormônios como o estradiol (uma forma de estrogênio). Contudo, a equipe também observou que genes ligados à inflamação e à atividade imunológica tornaram-se progressivamente mais ativos, e que o número de células do sistema imunológico nos ovários, incluindo células T e macrófagos, aumentou com a idade.

Mais pesquisas são necessárias para descobrir o que isso pode significar para a saúde imunológica e para a saúde geral, mas Duncan suspeita que isso represente uma mudança de identidade para os ovários, em vez de eles se tornarem uma “superpotência imunológica”. “Os ovários estão perdendo, de certa forma, a assinatura reprodutiva e assumindo uma assinatura imunológica, mas não acho que isso seja necessariamente algo bom.”

Tecidos em processo de envelhecimento sofrem “inflammaging” (inflamação associada ao envelhecimento), um estado de inflamação crônica de baixo grau. Células do sistema imunológico estão fortemente envolvidas nesse processo, o que leva Duncan a suspeitar que, na fase pós-reprodutiva, os ovários contribuem para isso liberando moléculas sinalizadoras inflamatórias. “É possível que essa mudança pós-reprodutiva não signifique nada, mas também é possível que esteja enviando esses sinais e se comunicando com outras partes do corpo”, diz ela.

Duncan ressalta que o estudo foi realizado apenas em camundongos, mas Diana Laird, da Universidade da Califórnia em São Francisco, suspeita que mudanças imunológicas semelhantes ocorram em humanos, dadas as semelhanças reprodutivas entre as duas espécies. “Ambos os organismos interrompem os ciclos quando sua reserva de oócitos (células germinativas femininas imaturas) cai abaixo de um limite crítico, e outras alterações, incluindo fibrose e aumento da inervação, são compartilhadas”, afirma ela.

Não está claro por que camundongos em envelhecimento teriam desenvolvido essa mudança de assinatura, diz Duncan, mas, se a mesma alteração ocorrer em humanos, pode ter sido vantajoso adquirir uma reserva de células imunológicas em uma época em que poucas pessoas chegavam à velhice. No entanto, isso pode levar à inflamação e até mesmo a doenças autoimunes na vida moderna.

As descobertas levantam questões sobre a importância dos ovários no período pós-menopausa. Quando saudáveis, eles geralmente são mantidos no organismo, pois continuam a liberar hormônios como os andrógenos, que ajudam a preservar a densidade mineral óssea e a libido. Contudo, Laird afirma que o estudo reforça as evidências crescentes de que alterações imunológicas nos ovários podem estar por trás do aumento da inflamação causadora de problemas como a artrite reumatoide na pós-menopausa. “Os resultados são um chamado para a realização de estudos detalhados e funcionais sobre os componentes celulares e moleculares do ovário pós-reprodutivo”, diz ela.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

O ovário pós-reprodutivo transita de um órgão reprodutivo para um órgão com características imunológicas

O envelhecimento reprodutivo em fêmeas caracteriza-se pelo esgotamento irreversível dos folículos ovarianos; no entanto, a estrutura e a função do ovário pós-reprodutivo permanecem pouco definidas. Por meio de análises histológicas e transcriptômicas em massa de ovários de camundongos fêmea reprodutivamente jovens (2 meses), reprodutivamente velhas (18 meses) e pós-reprodutivas (24 meses), mapeou-se como a identidade ovariana evolui após o esgotamento folicular.

Como esperado, observaram-se perda folicular, remodelação do estroma e aumento da deposição de colágeno nos grupos de animais reprodutivamente velhos e pós-reprodutivos. As análises transcriptômicas revelaram uma transição da funcionalidade reprodutiva para uma assinatura de dominância imunológica com o avanço da idade. Correspondentemente, os ovários pós-reprodutivos apresentaram maior infiltração de células T, macrófagos e células gigantes multinucleadas.

Embora os ovários de animais velhos e na fase pós-reprodutiva tenham diferido substancialmente dos ovários jovens, eles também exibiram diferenças transcriptômicas distintas entre si, indicando que o ovário continua a sofrer alterações moleculares após a senescência reprodutiva.

Por fim, alterações dependentes da idade em fatores ovarianos que se prevê serem secretados sugerem que o ovário pós-reprodutivo pode ser uma fonte de mediadores de sinalização pró-inflamatória, com potencial para modular tecidos extra-ovarianos.

Essas descobertas desafiam a suposição de que o ovário pós-reprodutivo é inerte, indicando, em vez disso, que ele adquire uma identidade imunológica com potencial influência endócrina e parácrina no envelhecimento de todo o organismo.

Veja também sobre "O processo de envelhecimento", "Menopausa precoce e menopausa tardia" e "Riscos e benefícios da retirada dos ovários".

 

Fontes:
Molecular Human Reproduction, Vol. 32, Nº 2, em 10 de junho de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 07 de julho de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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