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Corações transplantados passam a apresentar idade biológica semelhante à dos receptores, aponta estudo

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Corações transplantados passam a apresentar idade biológica semelhante à dos receptores, aponta estudo

O que acontece com os órgãos quando são transplantados? Corações de doadores jovens envelhecem rapidamente no corpo de receptores mais velhos, enquanto corações mais velhos são rejuvenescidos em pessoas jovens, segundo um estudo. Os resultados, divulgados no servidor de preprints bioRxiv e ainda não submetidos à revisão por pares, sugerem que órgãos para transplante poderiam ser obtidos de pessoas mais velhas do que aquelas consideradas atualmente.

Os transplantes cardíacos estão sendo realizados com frequência cada vez maior em todo o mundo e em pessoas cada vez mais velhas, em parte porque as pessoas estão vivendo mais. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram realizados 4.636 transplantes cardíacos em 2024, um aumento de 81,5% em relação a 2013. Ainda assim, centenas de pessoas em todo o mundo morrem a cada ano enquanto aguardam nas listas de espera por novos órgãos.

Isso levou a esforços para transplantar em humanos órgãos desenvolvidos em porcos e, em muitos lugares, as diretrizes foram modificadas para ampliar o número de corações humanos disponíveis para transplante. Em geral, recomendam-se doadores com menos de 45 anos, embora também sejam considerados doadores mais velhos que não apresentem sinais de doença arterial coronariana significativa.

Agora, Jesse Poganik, que estuda o envelhecimento na Universidade Harvard, em Boston, Massachusetts, e seus colegas investigaram como os corações de doadores alteram sua idade biológica — a quantidade de danos celulares que acumularam — após o transplante, tanto em camundongos quanto em humanos.

Leia sobre "Transplante de órgãos: quem pode e quem não pode doar ou receber órgãos" e "Doação de órgãos: como é feita".

Jovens de coração

A equipe transplantou corações adicionais de camundongos jovens (3 meses de idade), de meia-idade (1 ano) e velhos (1,5 a 1,67 anos) para camundongos de todas as três faixas etárias, de modo que os animais passassem a viver tanto com o coração transplantado quanto com seu coração original.

Quatro a seis meses após a operação, os pesquisadores sacrificaram os camundongos e coletaram amostras de tecidos para medir os níveis de metilação do DNA — a adição ou remoção de marcadores químicos chamados grupos metila — em cerca de 320 mil regiões genéticas, buscando alterações associadas aos danos celulares do envelhecimento. Eles compararam os níveis de metilação associados ao envelhecimento nos corações transplantados com os níveis encontrados nos corações originais dos animais.

A análise revelou que as idades biológicas dos corações doados haviam mudado para se aproximar das idades dos receptores: corações mais jovens transplantados para animais mais velhos apresentaram envelhecimento acelerado, enquanto corações velhos foram rejuvenescidos em receptores mais jovens.

Isso está de acordo com trabalhos anteriores nos quais dois organismos vivos foram unidos cirurgicamente para compartilhar um único sistema circulatório, um processo conhecido como parabiose. Descobriu-se que o sangue de camundongos jovens prolongava a vida dos camundongos mais velhos aos quais estavam conectados, além de melhorar sua memória e aprendizagem. O sangue de camundongos mais velhos pode aumentar a idade biológica de camundongos jovens.

A influência do organismo receptor

Em seguida, Poganik e seus colegas analisaram transplantes cardíacos realizados anteriormente no Brigham and Women's Hospital, em Boston, Massachusetts, buscando casos nos quais pudessem acessar amostras de biópsias para realizar testes de metilação do DNA. Eles investigaram 11 transplantes com uma diferença substancial de idade entre doador e receptor (de 8 a 24 anos para corações mais velhos transplantados para pessoas mais jovens, e de 38 a 50 anos para corações mais jovens transplantados para pessoas mais velhas).

“O mais notável é que encontramos exatamente os mesmos efeitos que observamos nos camundongos”, diz Poganik. Os corações transplantados haviam assumido as idades biológicas de seus novos hospedeiros.

Os pesquisadores também analisaram os prontuários médicos eletrônicos de centenas de receptores de transplantes cardíacos um ano após a operação, para investigar como os corações funcionavam e como isso se correlacionava com a idade biológica.

Eles descobriram que medidas como a frequência cardíaca, a espessura da parede posterior do coração e a capacidade de exercício estavam associadas à idade do receptor, e não à idade do doador. “Algumas medidas funcionais, mas não todas, acompanharam a previsão de que esses corações mais velhos em indivíduos mais jovens funcionavam como se fossem biologicamente mais jovens, e vice-versa”, diz Poganik. “Algumas coisas provavelmente são simplesmente irreversíveis.”

Os pesquisadores não observaram alterações nas funções de outros órgãos como resultado do transplante cardíaco.

“Este estudo brilhante está alinhado com os novos avanços científicos para compreender o envelhecimento e o efeito de fatores presentes no sangue que podem conter as respostas para a ‘fonte da juventude’”, diz o cirurgião Bartley Griffith, da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, em Baltimore, que realizou, em 2022, o primeiro transplante de um coração de porco geneticamente modificado para um ser humano.

O trabalho precisa ser reproduzido em coortes maiores e em diferentes programas de transplante, mas sugere que o conjunto de órgãos disponíveis para transplante poderia ser ampliado com a inclusão de doadores mais velhos, afirma Poganik.

Amy Fiedler, cirurgiã cardíaca da Universidade da Califórnia em São Francisco, afirma que ainda existe resistência em transplantar corações de doadores mais velhos para receptores mais jovens, devido a preocupações com a longevidade dos órgãos.

“Haverá agora uma corrida para utilizar corações de doadores mais velhos não apenas em receptores mais velhos, mas talvez priorizando pacientes jovens que poderiam atenuar a senescência celular avançada de um órgão mais velho?”, questiona Griffith. “Este trabalho tem o potencial de aumentar o uso de corações de doadores mais velhos e, provavelmente, de todos os órgãos para os jovens que aguardam nas listas de transplante. Que jornada estamos vivendo!”

Saiba mais sobre "Transplante cardíaco", "O processo de envelhecimento" e "Genética e longevidade".

Confira a seguir o resumo do artigo disponibilizado no bioRxiv.

Corações transplantados assimilam a idade biológica do receptor

Apesar da crescente demanda por transplantes, a escassez de órgãos de doadores persiste, limitando o acesso a esse procedimento que salva vidas. Para atender à demanda crescente, órgãos são frequentemente transplantados entre doadores e receptores com diferenças de idade.

Neste estudo, caracterizou-se a dinâmica da idade biológica em transplantes cardíacos heterocrônicos realizados tanto em camundongos quanto em pacientes. Realizou-se análises multiômicas e aplicou-se biomarcadores avançados de envelhecimento para compreender as interações entre o órgão transplantado e o hospedeiro.

Demonstrou-se que a idade biológica de corações transplantados experimentalmente se ajusta rapidamente à idade dos receptores. Curiosamente, esse efeito ficou limitado ao tecido transplantado, sem efeitos recíprocos sobre a idade biológica sistêmica do receptor. Esses efeitos foram confirmados nos níveis de metilação do DNA e de expressão gênica. Ampliando esses achados para o contexto clínico por meio de análises ômicas e funcionais, demonstrou-se que a idade biológica de corações transplantados de forma heterocrônica está fortemente associada à idade do receptor, e não à do doador, confirmando a relevância clínica desses achados experimentais.

Esses dados identificam o ambiente sistêmico como uma força determinante da idade biológica dos tecidos. O rejuvenescimento de órgãos mais velhos em receptores jovens sugere novas abordagens para a alocação de órgãos que podem ampliar o conjunto de órgãos disponíveis para transplante.

Veja também sobre "Idade metabólica versus idade cronológica", "Transplante renal" e "Transplante de fígado".

 

Fontes:
bioRxiv, preprint disponibilizado em 17 de setembro de 2026.
Nature, notícia publicada em 28 de setembro de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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