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Biólogos identificam possível mecanismo pelo qual o vírus Epstein-Barr desencadeia a esclerose múltipla

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Biólogos identificam possível mecanismo pelo qual o vírus Epstein-Barr desencadeia a esclerose múltipla

Há anos um vírus comum vem sendo associado ao desenvolvimento da esclerose múltipla, uma doença na qual o sistema imunológico do corpo ataca células nervosas no cérebro e na medula espinhal. Agora, pesquisadores descobriram como o vírus desencadeia essa reação do sistema imunológico. Eles também revelam como um tratamento de imunoterapia pode prevenir recidivas e retardar a progressão da doença. Os resultados foram publicados na revista Science Translational Medicine.

As descobertas são um sinal de que os cientistas estão começando a compreender a fundo como o vírus Epstein-Barr impulsiona o desenvolvimento da esclerose múltipla (EM), afirma Emily Edwards, pesquisadora de doenças raras da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália.

O vírus Epstein-Barr é um herpesvírus presente em cerca de 90% da população mundial. Para a maioria das pessoas, a infecção é relativamente inofensiva e não leva à EM. No entanto, para uma parcela da população, está “bem estabelecido” que o vírus Epstein-Barr é uma das principais causas da EM, segundo a coautora do estudo Natalia Drosu, pesquisadora de neurologia do Massachusetts General Hospital, em Boston. Mas, até agora, não se sabia como o vírus desencadeava a doença.

Na EM, células do sistema imunológico atacam a bainha de mielina, a camada protetora que envolve os nervos, causando problemas de visão e dificuldades para caminhar. A doença afeta cerca de 2,9 milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, pacientes com EM podem utilizar medicamentos para retardar a progressão da doença e reduzir a frequência e a gravidade dos episódios de agravamento dos sintomas, mas não existe cura.

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Resposta do sistema imunológico

Drosu conta que ela e sua equipe queriam investigar quais partes do sistema imunológico respondem ao vírus Epstein-Barr. Eles demonstraram que a atividade das células T era duas vezes maior em pessoas com EM do que em indivíduos saudáveis do grupo de controle. Ao reduzir seletivamente os níveis de diferentes tipos de células T nos participantes, os pesquisadores observaram que a resposta imunológica ao vírus diminuía acentuadamente quando um tipo específico, conhecido como célula T CD4+, era removido, indicando que esse grupo é o responsável por impulsionar a resposta.

Drosu explica que outro motivo para concentrarem a atenção nas células T CD4+ foi o fato de que um medicamento utilizado no tratamento da EM, chamado frexalimabe, atua justamente sobre elas. O tratamento reduz a inflamação e os danos aos nervos ao bloquear a atividade das células T CD4+. “Isso sugeriu que deveríamos analisar essa resposta imunológica em particular”, esclarece ela. Outra classe de medicamentos já existentes, conhecida como terapias anti-CD20, também reduz a responsividade do sistema imunológico ao vírus Epstein-Barr, mas o mecanismo exato não estava claro, aponta o estudo.

Para investigar isso, os pesquisadores mediram a resposta das células T ao Epstein-Barr em 60 pessoas com EM antes e seis meses após o início do tratamento com anti-CD20. Eles constataram que a resposta das células T aos antígenos líticos do vírus havia diminuído cerca de 2,5 vezes ao final do período de avaliação. A equipe validou os resultados em um segundo grupo de pessoas e observou que essa redução na resposta das células T ao Epstein-Barr persistiu por até um ano.

Um outro grupo de pessoas submetidas ao tratamento anti-CD20 também apresentou menor eliminação do vírus Epstein-Barr na saliva em comparação com pessoas saudáveis e indivíduos com EM não tratados.

Edwards afirma que isso sugere que o tratamento reduz a atividade viral no organismo. A terapia anti-CD20 atua ligando-se a outro tipo de célula imunológica, as células B, e destruindo essas células, que estão infectadas pelo vírus. Com a redução do número de células B, as células T CD4+ recebem menos estímulos aos quais responder, o que resulta em uma resposta imunológica atenuada. “Isso demonstra a importância de ambos os grupos de células imunológicas na progressão da doença e como podemos modular esse processo com imunoterapias para, potencialmente, reduzir a gravidade da doença”, acrescenta Edwards.

Os resultados também reforçam o interesse em estratégias direcionadas especificamente ao vírus Epstein-Barr. Os pesquisadores consideram que antivirais capazes de controlar sua atividade podem representar uma abordagem a ser investigada para a EM. Vacinas contra o EBV, atualmente em desenvolvimento, também são consideradas promissoras, principalmente por seu potencial de prevenir a infecção e, consequentemente, reduzir o risco de desenvolvimento da doença.

Potencial biomarcador

Drosu afirma que as descobertas também sugerem que a EM pode funcionar de maneira semelhante à doença celíaca. Em pessoas com essa condição, as células T CD4+ reagem ao glúten, que o organismo trata como uma ameaça externa, desencadeando uma resposta imune. A eliminação do glúten da dieta evita a ativação do sistema imunológico, reduzindo a resposta imune do corpo e os sintomas do paciente. “Se a EM funcionar de forma semelhante, investigar o gatilho pode ser um caminho que vale a pena explorar”, acrescenta ela.

Edwards observa que as doenças são parecidas, mas reduzir a exposição ao vírus Epstein-Barr para evitar a ativação do sistema imunológico seria muito mais difícil no caso da EM do que na doença celíaca, pois o vírus está alojado no interior das células do indivíduo. “Não é algo que se ingere; portanto, é necessária uma intervenção muito mais ativa para eliminar o antígeno”, diz ela.

Como as células T CD4+ respondem especificamente a partículas do vírus Epstein-Barr, Edwards afirma que essas células também poderiam servir como marcador do estágio da doença antes, durante e após o tratamento, permitindo avaliar se a terapia está sendo eficaz. Além disso, é possível que as células T CD4+ sejam utilizadas para prever se um paciente responderá ao tratamento ou se precisará de uma dose mais elevada.

Veja também sobre "Células do sistema imunológico", "Antígenos e anticorpos - o que são" e "Imunoterapia".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Células T CD4+ reativas a antígenos líticos tardios do vírus Epstein-Barr estão enriquecidas em indivíduos com esclerose múltipla

A patogênese da esclerose múltipla (EM) está associada ao vírus Epstein-Barr (EBV), mas os mecanismos imunológicos subjacentes permanecem pouco esclarecidos.

Utilizando um ensaio otimizado para células T, demonstrou-se que as células T CD4+ de indivíduos com EM reconhecem predominantemente componentes das partículas virais do EBV, especificamente antígenos tardios da fase lítica presentes no capsídeo e em glicoproteínas virais, em vez de antígenos da fase latente. Em contrapartida, o antígeno nuclear 1 do Epstein-Barr (EBNA1) ativou principalmente células T CD8+.

As respostas de células T CD4+ específicas para o EBV foram duas vezes mais intensas em indivíduos com EM não tratados em comparação com controles saudáveis, enquanto as respostas a outros herpesvírus permaneceram semelhantes. O início da terapia anti-CD20 em participantes que ainda não haviam recebido tratamento reduziu essas respostas, um achado que foi validado em uma coorte independente, e suprimiu a eliminação viral na saliva.

Esses resultados estabelecem a reatividade preferencial de células T CD4+ a antígenos da fase lítica tardia do EBV como uma característica fundamental da EM, fornecendo uma base para o desenvolvimento de terapias direcionadas ao EBV, incluindo vacinas e antivirais.

 

Fontes:
Science Translational Medicine, Vol. 18, Nº 858, em 15 de julho de 2026.
Nature, notícia publicada em 15 de julho de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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