NewsMed

Em 20 tipos diferentes de câncer, homens têm maior probabilidade de serem diagnosticados em estágio avançado

segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Avalie este artigo
Em 20 tipos diferentes de câncer, homens têm maior probabilidade de serem diagnosticados em estágio avançado

Dados de uma rede nacional de registros dos Estados Unidos mostraram que homens apresentaram maior probabilidade do que mulheres de receberem diagnóstico em estágio avançado para 20 tipos diferentes de câncer.

A análise de 30 tipos de câncer em órgãos não reprodutivos revelou que os homens apresentaram maiores razões de chances (odds ratios) para metástase regional ou à distância no momento do diagnóstico em dois terços dos tipos de câncer analisados. Os homens apresentaram risco significativamente maior de disseminação regional no diagnóstico para 16 tipos de câncer e de metástase à distância para 17.

A maior disparidade entre homens e mulheres foi observada nos cânceres de língua, tireoide e glândulas salivares, nos quais o diagnóstico em estágio avançado ocorreu com o dobro da frequência. Apenas no caso do câncer de bexiga os homens apresentaram chances significativamente menores de diagnóstico em estágio avançado (tanto para disseminação regional quanto à distância).

Os tipos de câncer em que os homens apresentaram maiores chances de metástase regional e à distância no diagnóstico incluíram vários cânceres de cabeça e pescoço, melanoma e cânceres gástrico, de pulmão, de tireoide e renal, entre outros.

Essas descobertas complementam o risco já conhecido de maior mortalidade por câncer entre homens e podem oferecer insights sobre as razões dessa disparidade, relataram Beth Maclin, PhD, do National Cancer Institute (NCI) em Bethesda, Maryland, EUA, e seus colegas no artigo publicado na revista Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention.

“Os resultados deste estudo ressaltam diferenças acentuadas e específicas conforme o local do tumor entre os sexos quanto ao estágio do câncer no momento do diagnóstico, sugerindo a necessidade de estratégias direcionadas para detecção precoce e intervenção”, concluíram os autores. “São necessários estudos adicionais para investigar as causas subjacentes dessas diferenças de estágio, a fim de embasar futuras intervenções voltadas à redução de atrasos no diagnóstico, particularmente entre o público masculino.”

Leia sobre "Por que fazer um check-up médico", "Medicina Preventiva - O que é" e "Como evitar o câncer".

Os resultados se somam a diversos estudos observacionais que “demonstraram consistentemente que os homens são menos propensos do que as mulheres a participar de ações de saúde preventiva, incluindo o rastreamento do câncer. Isso condiz com a minha própria experiência clínica”, afirmou Jose Barreau, MD, da PreOncology, uma clínica de oncologia sediada na Flórida com foco em prevenção e detecção precoce.

“A disparidade provavelmente decorre de uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e relacionados à utilização dos serviços de saúde”, disse Barreau. “De modo geral, os homens têm menos probabilidade de manter interações regulares com o sistema de saúde ou de estabelecer vínculos contínuos na atenção primária, além de frequentemente postergarem a busca por avaliação médica. Normas tradicionais de gênero também podem contribuir para esse cenário, levando muitos homens a subestimar riscos ou adiar cuidados preventivos até o surgimento de sintomas. Barreiras práticas, como horários de trabalho e acesso aos serviços de saúde, também desempenham um papel importante.”

“Aumentar a participação exigirá tornar a prevenção mais personalizada, de acesso mais fácil e mais claramente vinculada ao risco real de cada indivíduo, em vez de depender apenas de recomendações baseadas na idade”, acrescentou ele.

Os resultados “não são surpreendentes” e estão em consonância com estudos “publicados há muitos anos”, que mostram disparidades entre os sexos quanto ao estágio do câncer no momento do diagnóstico, afirmou Jingqin Luo, PhD, da Universidade Washington em St. Louis.

“Trata-se de uma análise muito abrangente e atualizada, que utiliza os dados mais recentes”, disse Luo, especialista da Associação Americana para Pesquisa do Câncer. “Este estudo aprofunda a análise por localização específica do tumor e realiza estratificações por raça, renda e outros fatores; assim, ele aborda, de certa forma, como os determinantes sociais da saúde influenciam o estágio do diagnóstico.”

No artigo publicado, os pesquisadores relatam que homens apresentam maior probabilidade de morrer de câncer do que mulheres, o que pode ser explicado, em parte, por diferenças no estágio da doença no momento do diagnóstico. Neste contexto, esta análise abrangente de diversos tipos de câncer examinou as diferenças entre os sexos quanto ao estágio do tumor no diagnóstico em órgãos sólidos não reprodutivos, abrangendo 30 localizações anatômicas.

Foram utilizados dados do banco de dados Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) 21 (2015-2022, excluindo o ano de 2020). Realizou-se análises de regressão logística politômica múltipla para avaliar a associação entre sexo e estágio da doença (localizado versus regional e localizado versus à distância) para cada localização, com ajustes para idade e ano do diagnóstico. Além disso, foram conduzidas análises estratificadas por raça/etnia e pela renda familiar mediana do condado de residência.

A análise incluiu 2.401.772 pacientes, sendo que os homens representaram 56,9% da população do estudo. Cerca de 45% dos cânceres estavam localizados no momento do diagnóstico. Os cânceres mais frequentemente diagnosticados em homens foram pulmão (20,3%), cólon (15,7%) e bexiga (11,1%), em comparação com pulmão (26%), cólon (18,2%) e tireoide (9,8%) nas mulheres.

Das 30 localizações examinadas, os homens apresentaram maiores chances de diagnóstico em estágios regional e/ou à distância em comparação com o estágio localizado em 20 delas, enquanto apresentaram menores chances de diagnóstico nesses estágios mais avançados em quatro localizações, em comparação com as mulheres.

O diagnóstico em estágio regional, em comparação com o estágio localizado, ocorreu com frequência significativamente maior em homens para 16 dos 30 tipos de câncer. As maiores razões de chances ajustadas (aORs) foram observadas para cânceres de:

  • Língua: aOR 2,51; IC de 95% 2,40-2,64
  • Glândula salivar: aOR 1,93; IC de 95% 1,78-2,09
  • Orofaringe: aOR 1,80; IC de 95% 1,51-2,14
  • Tireoide: aOR 1,74; IC de 95% 1,69-1,78
  • Estômago: aOR 1,67; IC de 95% 1,61-1,74
  • Pulmão e brônquios: aOR 1,25; IC de 95% 1,23-1,27
  • Rim e pelve renal: aOR 1,22; IC de 95% 1,19-1,25

Homens apresentaram chances significativamente maiores de metástase à distância no momento do diagnóstico para 17 dos 30 tipos de câncer, incluindo:

  • Língua: aOR 2,34; IC 95% 2,16-2,53
  • Tireoide: aOR 2,28; IC 95% 2,14-2,43
  • Glândula salivar: aOR 1,97; IC 95% 1,77-2,20
  • Estômago: aOR 1,56; IC 95% 1,51-1,62
  • Melanoma: aOR 1,50; IC 95% 1,43-1,56
  • Ossos e articulações: aOR 1,46; IC 95% 1,28-1,68
  • Pulmão e brônquios: aOR 1,35; IC 95% 1,33-1,36
  • Rim e pelve renal: aOR 1,30; IC 95% 1,26-1,34

Homens apresentaram probabilidade significativamente menor de receber diagnósticos em estágio regional para cânceres de laringe e bexiga, e probabilidade significativamente menor de apresentar metástase à distância no momento do diagnóstico para cânceres de bexiga, ânus e fígado.

O estudo concluiu que, para a maioria das localizações examinadas, os homens apresentaram uma probabilidade significativamente maior de serem diagnosticados em estágios com disseminação regional ou à distância do que em estágio localizado, quando comparados às mulheres.

São necessárias mais investigações para elucidar os mecanismos subjacentes às diferenças entre os sexos no estágio do diagnóstico e para identificar estratégias de intervenção eficazes e direcionadas, visando reduzir as disparidades no diagnóstico, particularmente entre os homens.

Saiba mais sobre "Metástases", "Câncer de boca e suas características" e "Câncer da cabeça e pescoço".

Quanto à forma de abordar as disparidades no diagnóstico, uma abordagem personalizada aos cuidados preventivos, particularmente no que diz respeito ao rastreamento do câncer, pode incentivar uma maior adesão e participação, afirmou Barreau.

“Em vez de simplesmente recomendar o rastreamento com base em diretrizes, concentro-me em ajudar os pacientes a compreenderem seu risco individual de câncer, levando em conta genética, histórico familiar, estilo de vida, histórico médico e outros fatores clínicos”, disse ele. “Quando as pessoas entendem por que uma recomendação se aplica especificamente a elas, a probabilidade de que sigam as orientações é muito maior.”

Encarar o rastreamento do câncer como um processo contínuo, e não como um exame isolado, também pode favorecer a adesão.

“A ciência que fundamenta os exames de câncer evolui rapidamente, e não existe uma modalidade de rastreamento única que seja suficiente para todos os indivíduos ou para todos os tipos de câncer”, observou Barreau. “Nosso objetivo é ajudar os médicos da atenção primária a lidar com essa complexidade, associando a estratégia de rastreamento adequada ao paciente certo e no momento certo, com reavaliações contínuas à medida que a biologia do paciente e as evidências científicas evoluem.”

 

Fontes:
Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, Vol. 35, Nº 7 em julho de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 09 de julho de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários